Professora portuguesa e os seus alunos pedem obras em bairro ignorado de Cabo Verde

Dezembro 2017 / As últimas

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Helena Margarida Casal Duarte é professora na Escola Secundária da Boa Vista, em Cabo Verde, desde 1999. Tem um olhar atento e empático para com a população. Preocupada com a situação do Bairro da Boa Esperança, em Sal-Rei, na ilha da Boa Vista, escreveu uma Carta Aberta e desafiou os alunos a escrever sobre o seu bairro:

«O problema do Bairro da Boa Esperança é um problema antigo e grave! Desde 2001 que começaram a ser construídas as primeiras barracas na ilha da Boa Vista, em Sal Rei, e agora temos um bairro que é maior que a própria cidade, com um maior número de habitantes.

Os sucessivos governos, central e local, têm feito vista grossa a esta realidade. Foram construídos três blocos de Casas para Todos para dar resposta à construção clandestina no bairro e até à data nenhum dos blocos foi entregue, estando as casas fechadas e outras por terminar.

Quando chove a situação no Bairro é caótica. Já foram reveladas nas redes sociais, ano após ano, por fotógrafos e jornalistas a realidade que aqui se vive depois das chuvas.

A meu ver, o que se vive no Bairro depois das chuvas são situações de calamidade: água na rua, água a nascer dentro de casas, lixo a céu aberto…

Ao longo destes anos, tem-se assistido a esta triste realidade e ninguém faz rigorosamente nada!

Em 2014, quando o vulcão do Fogo entrou em erupção, o Governo propôs um aumento do IVA para fazer face à calamidade do povo da ilha. Concordo plenamente.

Este ano, assistiu-se ao aumento do IVA para fazer face aos estragos que a chuva fez em Santo Antão. Concordo plenamente.

Mas agora pergunto: Sempre que chove, o Bairro da Boa Esperança enche-se de água, deixando os seus moradores em estado de calamidade. Por que motivo nunca foi estabelecida uma verba para resolver esta situação? Do que é que estão à espera os nossos governantes para resolverem esta situação de uma vez por todas?

Estão a ser construídos mais hotéis. Virá mais gente para a Boa Vista. Será que todos terão que enfrentar esta dura realidade, se afinal o que buscam é trabalho e melhores condições de vida?

Recentemente dei uma prova aos meus alunos do 8.º Ano em que lhes solicitava que escrevessem uma página de um diário com a sua apresentação, num texto de cerca de 20 linhas.

Fui surpreendida com esta página que transcrevo e deixo à vossa consideração. É por este aluno e por todos os alunos e pessoas que vivem nestas condições que hoje escrevi este texto e partilho as preocupações do Nilton.

«O meu diário é sobre o Bairro de Boa Esperança

Sal Rei, 04/11/2016

Querido Bairro de Boa Esperança,

Eu sou o Nilton, eu tenho 16 anos e gosto de praticar exercício físico (…), gosto de jogar à bola e ir à praia de mar.

Agora eu quero falar um pouco do Bairro da Boa Esperança porque lá no Bairro não tem luz 24 horas e também não tem saneamento. A câmara não calcetou as ruas e todas as vezes que chove ficam poças de água e passam dias e a água vai “feder”. Vai criar mais água e não há caminhos para passar, porque a água fica em toda a parte do Bairro de Boa Esperança.

Eu gosto do Bairro porque tem coisas boas, mas também tem coisas muito ruins, como estou a dizer: o caso da chuva. Há pessoas em que entra a água em suas casas, parece que a água nasce do chão dentro de casa. Outras a água fica só na rua, mas diante das suas portas. Assim quando vão sair para o trabalho têm de pisar na água suja.

E também os trabalhadores da câmara não apanham lixo no Bairro e fica muito feio e sujo e cria doenças.

E tem crianças que brincam na água suja e apanham gripes, febres e muitas doenças e quando vão para o jardim pegam as doenças aos colegas e assim vai ficar todo o mundo doente.

Por isso eu digo para as pessoas se manifestar e fazer uma manifestação para o Bairro de Boa Esperança.

Nilton

Por: Audácia