Carta de S. Daniel Comboni a narrar a sua peregrinação a Jerusalém

Dezembro 2017 / As últimas

comboni jerusalém 2

Queridíssimos pais,

Vou contar-vos brevemente a minha viagem à Palestina, onde permaneci cerca de duas semanas. Vós não estáveis pessoalmente a acompanhar-me nestes lugares santos, mas eu, em espírito, estava sempre convosco, de tal maneira que, nesta minha peregrinação religiosa, não dei um único passo sem imaginar que me encontrava convosco. Como sabeis, partindo de Alexandria do Egipto no passado dia 29, e uma vez atravessado o mar que separa a Ásia da África a norte do Egipto, passando Cesareia, chegámos felizmente a Jaffa, que é um porto importante da Ásia e o primeiro lugar na Palestina onde se pode obter indulgência plenária.

Logo que nós, os dezasseis religiosos, demos graças ao Senhor na Igreja de S. Pedro, cantando o Te Deum, entrámos no convento dos Franciscanos, que nos proporcionaram uma caritativa hospitalidade. Esta hospitalidade é concedida indistintamente a todos os europeus, sejam católicos ou não, e a todos os ortodoxos orientais de qualquer rito. Pelo que nestes conventos se acolhem príncipes e pobres, seculares e regulares, não havendo na Terra Santa nenhuma hospedaria nem lugar seguro para acolher os viajantes; é tudo fruto das piedosas esmolas dos católicos da Europa que costumam recolher-se na Semana Santa.

Enquanto os padres franciscanos estavam ocupados para nos arranjarem um meio de transporte para a Cidade Santa, eu ia meditando sobre os acontecimentos que tornaram célebre esta cidade, que é a antiga Joppe da Sagrada Escritura. Era aqui que Salomão fazia desembarcar das jangadas os cedros do Líbano, que deviam servir para a construção do Templo; aqui onde o profeta Jonas embarcou para Tarso em vez de ir para Nínive pregar a penitência; aqui teve S. Pedro a célebre e misteriosa visão do lençol; aqui ressuscitou a caridosa Tabita; aqui recebeu os embaixadores de Cornélio que o convidavam a ir a Cesareia para o baptizar a ele e a toda a sua família; aqui embarcou nossa Senhora com S. João quando, depois da morte de Jesus, navegou para Éfeso; aqui esteve algum tempo S. Luís, rei de França; aqui atracaram muitos milhares de santos, que acudiam a venerar os Lugares Santos.

Depois do almoço, tendo-nos despedido dos missionários que ficavam em Jaffa, bem como de um príncipe polaco, que encontrámos no barco e com quem almoçámos, nós, em companhia de um missionário da China, um outro das Índias Orientais, dois missionários da Companhia de Jesus e Mons. Ratisbonne, de Paris, que, convertido do judaísmo à nossa fé em Roma, por obra do Sumo Pontífice, se dirige a Jerusalém para fundar um instituto gratuito de educação cristã, saímos às duas horas para Ramle com a ideia de, a cavalo, chegar a Jerusalém durante a noite do dia seguinte. Eu estava maravilhado ao pensar que, pela primeira vez que viajava a cavalo, me cabia em sorte percorrer os montes da Judeia. Por isso, como novato a cavalgar, pedi o cavalo mais velho e lento, sendo imediatamente atendido.

Ao sair de Jaffa, caminha-se ora por estradas flanqueadas aqui e ali por densas sebes de sicômoros, que escondem laranjais, limoais, bem como plantações de romãzeiras, bananeiras, damasqueiros e outras árvores de fruto, ora por campos sem vegetação alguma, ora através de pequenas colinas que têm aqui e além uma oliveira meio queimada pelo sol. Sempre sob um céu que, durante o dia, queima com o seu calor o pobre viandante. Atravessados estes lugares, encontrámo-nos diante das agrestes charnecas dos filisteus, de onde tivemos oportunidade de contemplar os montes da Judeia, que vão à esquerda juntar-se com os da Samaria, os quais oferecem um aspecto triste a quem pensava que estava a viajar na Terra Prometida, onde corre leite e mel.

Antes da noite, no meio da planície, fomos alcançados por dois beduínos a cavalo armados de lança e de pistolas. Mas, ao verem-nos em maior número, não nos atacaram. Interrogados por nós sobre quais eram as suas intenções, responderam-nos que estavam a vigiar o caminho por ordem do Governo turco, a fim de assegurar a passagem aos peregrinos.

Mons. Ratisbonne, assustado, procurou conquistá-los com um generoso bacchiss (gorjeta) de 20 piastras. Chegámos já noite avançada a Ramle, segundo S. Jerónimo a Arimateia do Evangelho, terra de José de Arimateia, isto é, aquele decurião que pediu a Pilatos o corpo crucificado de J. C. e o enterrou num sepulcro novo escavado na rocha, que ele havia preparado para si mesmo num jardim que possuía no Gólgota. Esta foi a primeira cidade conquistada pelos cruzados na Palestina; era fortíssima. Agora vêem-se apenas torres derrubadas e ruínas antigas, entre as quais sobressai a torre dos 40 mártires de Sebaste e a casa de Nicodemos, na qual conto celebrar missa quando voltar de Jerusalém.

Recebida uma generosa hospitalidade, na manhã seguinte, pelas quatro, saímos de Ramala e, atravessada a belíssima e fértil planície de Saron, chegámos ao sopé das montanhas da Judeia; para as atravessar gastámos um dia inteiro sob um Sol ardente. Esta viagem é, com efeito, muito fatigante, seja porque, sendo aquelas montanhas ásperas, escarpadas e estéreis, o Sol castiga continuamente, sem possibilidade de defesa debaixo de uma árvore qualquer, seja porque a estrada é péssima, cheia de calhaus por toda a parte e de quando em quando rochas.

Mas a ideia de que ia para Jerusalém punha-me asas nos pés e no  coração e não me fazia sentir o cansaço da viagem. A meio do caminho encontram-se: o castelo do Bom Ladrão, aquele que mereceu o Paraíso por ter compaixão de J. C. na cruz; o deserto de Abu-Gosci, um assassino que por estes sítios fez muitas vítimas, acabando finalmente por ser morto; a Igreja de Jeremias; o cimo do vale de Terebinto; a cidade de Colónia e os restos de muitos lugares famosos nas Escrituras. Finalmente, ao anoitecer, depois de atravessadas cinco cadeias de montanhas, chegámos à vista de Jerusalém. Então Mons. Ratisbonne mandou que todos desmontássemos dos cavalos e, prostrados por terra, adorámos o Senhor e venerámos aqueles santos lugares tantas vezes pisados por J. C. Depois, deixámos os cavalos em poder dos miior, ou guias, e descemos à Cidade Santa.

Oh! Que grande impressão me fez Jerusalém! O pensamento de que   cada palmo daquele terreno sagrado representa um mistério fazia-me tremer e ocorriam-me estas ideias: aqui talvez tenha estado J. C.; aqui, a Virgem Maria; por aqui passaram os Apóstolos, etc.

Depois de cumpridas as formalidades com o Reverend.mo da Terra Santa e com os cônsules francês e austríaco, retirámo-nos para o convento, onde repousámos. Para falar verdade, estávamos todos mortos de cansaço pela viagem. Eu admirava-me em relação aos outros missionários, habituados à fadiga. Quanto a mim, já esperava, pois nunca tinha andado a cavalo, e a primeira vez que andei tocou-me logo viajar dia e meio, sem parar, pelas planícies dos Filisteus e pelas montanhas da Judeia!

Na manhã seguinte, dia 3 do corrente, comecei a visitar os Lugares Santos. Primeiramente fui ao templo do Santo Sepulcro. Este templo, construído por St.a Helena, mãe de Constantino, é o primeiro santuário do mundo, porque encerra o Santo Sepulcro de J. C. e o monte Calvário em que morreu. Cheio destas ideias religiosas, fiquei assombrado ao ver o átrio deste templo ocupado pelos turcos, que fazem aí mercado, a porta e o primeiro recinto guardado por turcos que fumam, comem e se maltratam uns aos outros; os gregos e os arménios ortodoxos que gritam, que se agarram, se batem e praticam ali mil irreverências.

O templo do Santo Sepulcro compreende: 1.o) O Santo Sepulcro; 2.o) A coluna da flagelação, que foi levada até lá desde a casa de Pilatos; 3.o) A Capela de St.a Helena; 4.o) A Capela da Invenção da Cruz, isto é, onde a Cruz  foi encontrada, e foi identificada entre as dos dois ladrões crucificados com J. C. mediante o milagre da ressurreição de um morto; 5.o) A Pedra da Unção, onde foi ungido e embalsamado por José e Nicodemos o Corpo de Jesus Cristo, antes de o meterem no Santo Sepulcro. 6.o) A capela onde foi crucificado J. C. 7.o) O lugar onde foi levantada a Cruz, no qual existe o buraco onde ela foi colocada; ao beijá-la, como a todos estes lugares erigidos em capelas, ganha-se indulgência plenária. 8.o) O lugar ou capela onde estava a V. Maria, quando J. C. se achava na cruz, e recebeu em seus braços o seu divino filho morto. 9.o) A capela onde estava a V. M. quando J. C. foi pregado na cruz; 10.o) o cárcere onde J. C. esteve na noite que antecedeu a sua morte; 11.o) A capela da divisão das vestes; 12.o) A coluna dos impropérios, onde J. C. foi cuspido, batido, etc., antes de ser condenado à morte, a qual estava na casa de Caifás e depois foi trazida para a aqui; 13.o) A capela da aparição a St.a Madalena; 14.o) A capela onde, segundo a tradição, J. C. ressuscitado apareceu à Virgem Maria, como diz S. Jerónimo. Cada vez que se visita estes Lugares Santos ganha-se indulgência plenária.

Este magnífico templo abarca todo o monte Calvário, ao qual está    anexo o sepulcro de S. Nicodemos, que este mandou escavar depois de ceder o seu a J. C. Não tenho palavras para exprimir a  grande impressão, os sentimentos que em mim despertaram todos estes preciosos santuários que recordam a paixão e morte de J. C. O Santo Sepulcro fez-me ficar extasiado e a pensar comigo mesmo: aqui, portanto, esteve 40 horas Jesus Cristo?! Esta é a sagrada tumba que teve a sorte de encerrar em si o Criador do Céu e da Terra, o Redentor do mundo?!  Esta é a tumba que beijaram tantos santos, diante da qual se prostraram tantos monarcas, tantos príncipes e bispos em todos os séculos depois da morte de J. C.?!

Eu beijei e voltei a beijar várias vezes aquela sagrada tumba, prostrei-me repetidamente a adorá-la e sobre aquela tumba, ainda que indigno, rezei por vós e pelos nossos amados parentes e amigos; tive a consolação de rezar lá duas missas: uma por mim, por vós e pela minha missão; a outra por vós, queridos pais.

Depois desta visita, que foi breve a primeira vez, porque um grego ortodoxo me fez sair, subi ao monte Calvário, trinta passos mais acima do Santo Sepulcro, beijei aquela terra sobre a qual esteve a cruz, sobre a qual esteve estendido e pregado J. C. ; evoquei na minha mente aquele momento doloroso em que neste lugar, assinalado por uma laje de mármore em mosaico, esticaram e deslocaram os braços a J. C., a fim de as mãos chegarem aos furos dos pregos em que foi crucificado; fiquei com o coração comovido por muitos sentimentos, amor, etc.

A um passo e meio do lugar da crucifixão, à esquerda, fica o lugar onde esteve a V. Maria, quando J. C. gemia na cruz; também isso fez em mim grande impressão; quando, depois, a dois passos de distância, cheguei ao sítio onde foi levantada a cruz e o superior dos franciscanos do S. Sepulcro me disse que aquela era a cavidade em que fora erguida a cruz, desatei a chorar copiosamente e afastei-me por um pouco; em seguida, quando os outros já haviam beijado, aproximei-me também eu e beijei muitas vezes aquela cavidade bendita; e vieram-me à mente estes pensamentos: então é este o Calvário!

Ah! eis o monte da mirra, eis o altar da Cruz, onde se consumou o grande sacrifício. Eu encontro-me mesmo no cimo do Gólgota, mesmo no lugar onde foi crucificado o Filho Unigénito de Deus: aqui se efectuou o resgate humano; aqui foi dominada a  morte, aqui vencido o Inferno, aqui fui eu redimido. Este monte, este lugar tingiu-se com o sangue de J. C.; estas penhas ouviram as suas últimas palavras; este ambiente acolheu o seu último suspiro: ao morrer abriram-se os sepulcros, rasgaram-se os montes; a poucos passos do lugar onde foi levantada a cruz vê-se uma enorme abertura duma profundidade incalculável que, segundo uma constante tradição, se produziu quando da morte de J. C.

Venerei igualmente a Coluna da Flagelação, a Pedra da Unção, a prisão de J. C., a Coluna dos Impropérios, a Capela da Invenção Cruz, etc. E para dizer-vos algo sobre o templo do Santo Sepulcro, ele está em poder dos turcos, dos gregos ortodoxos e dos Padres Observantes Franciscanos.

Os turcos têm as chaves do templo, que abrem, a pedido do intérprete europeu ao serviço dos católicos e ortodoxos, duas vezes ao dia, ou seja, às 6 da manhã, ficando aberto até às 11, e às 3, ficando até às 6; e para que o abram há que dar ao porteiro turco, por ordem do Governo turco, duas piastras, que equivalem a 60 cêntimos. Os turcos ocupam-se apenas da guarda e das chaves do templo. O Santo Sepulcro está nas mãos dos gregos e dos arménios ortodoxos; os católicos podem apenas celebrar três missas, uma delas cantada, e estas das quatro às seis. Se a missa cantada não estiver terminada antes das seis, entram no Sepulcro os gregos e, aos murros e bastonadas, expulsam o sacerdote celebrante, tenha ou não terminado a missa; por essa razão foram tantas vezes feridos e até mortos no Santo Sepulcro os padres católicos.

No Calvário, a capela onde foi levantada a cruz é domínio exclusivo dos gregos ortodoxos: lá nenhum católico pode celebrar missa, sob pena de morte. O lugar onde esteve a Virgem Maria, que fica dois passos à esquerda da cavidade, e o lugar da crucifixão, que dista um passo e meio da Capela da Virgem, a três passos e meio da supradita cavidade, são domínio exclusivo dos católicos e aqui celebrei duas missas: a primeira, no lugar onde Nossa Senhora esteve durante as três horas de agonia, celebrei-a por vós, querida mãe; a segunda, no lugar da crucifixão, foi por vós, querido pai.

Na capela onde Maria esteve quando J. C. era estendido e pregado na cruz, que fica a cinco passos à esquerda da cavidade cruz, celebrei pelo Eustáquio, pelo tio José, César, Pedro e toda a sua família, especialmente pelo Eugénio, para que M.a Ssma. o proteja na sua perigosa educação. Todos os outros lugares estão na mão dos católicos: todos, porém, estão abertos à veneração, seja dos gregos seja dos católicos. Por isso todas as tardes, às quatro, os padres franciscanos fazem procissão, recitam orações em público e incensam no Santo Sepulcro, no Calvário e em todos os lugares acima referidos. Eu também participei na procissão e, como sacerdote, ofereceram‑me a vela do Santo Sepulcro, que eu vos mando dividida em três partes, como direi mais adiante.

Para celebrar missa no Santo Sepulcro, fiquei fechado duas noites inteiras dentro do templo, para estar pronto para às 4 iniciar a missa. Estas duas noites foram para mim muito agradáveis, porque tive oportunidade de venerar todos os santuários deste santo templo, de fazer as minhas preces, indignas mas fervorosas, pela minha missão, por vós e por todos aqueles que de algum modo me são chegados.

É verdade que se está sujeito a um ou outro insulto, especialmente da parte dos gregos, que nos são mais hostis que os turcos; mas o que é um insulto neste lugar onde J. C. recebeu tantos e foi crucificado? Devo dizer que o  templo do S. Sepulcro, que é o primeiro santuário do mundo, é também o mais profanado do mundo: de facto, todos os anos há feridos e mortos; todos os dias há gritos, escândalos e pancadaria; e os gregos, cujos sacerdotes são casados, chegam até ao ponto de consumar o matrimónio junto ao Sepulcro e ao Calvário, e cometem as maiores irreverências – que eu calo por pudor e por não poder exprimir por palavras – das quais ninguém pode fazer uma ideia, se as não vir com os próprios olhos. Mas basta.

Depois de visitar o S. Sepulcro e o Calvário, a minha primeira ideia foi percorrer e visitar a Via Dolorosa, que começa no pretório de Pilatos e termina no Calvário. Esta é a via percorrida por J. C. quando, depois de condenado à morte, carregou a cruz para o Gólgota. Nesta fiz a via crucis, detendo-me a recitar as estações, como estão naquela que começa com a palavra Crucifigatur, nos mesmos lugares onde aconteceram os 14 mistérios que se contemplam na Via Crucis. O trajecto tem cerca de 820 passos. O pretório de Pilatos, situado sobre o monte Acra, foi primeiramente convertido numa igreja, depois passou a quartel militar, função para a qual ainda hoje serve; mediante uma gorjeta pode visitar-se: nesse pretório eu vi o lugar onde J. C. foi condenado à morte, o lugar onde foi flagelado e lá celebrei missa pela minha missão, por vós e pelos nossos parentes; por estas intenções apliquei todas as outras missas celebradas na Terra Santa.

Vi o Lithostrotos e todos os lugares onde, neste palácio, sofreu J. C. Esse está agora dividido nas seguintes partes: 1.o) O lugar onde J. C. foi sentenciado à morte. 2.o) A sala dos impropérios, na qual J. C. foi acusado de blasfemador, criminoso, desobediente a César, usurpador do nome de Deus; quantas acusações, ignomínias, calúnias, humilhações, vitupérios, insultos e tormentos não suportou aqui J. C.! Aqui cobriram o seu rosto de escarros, despojaram-no das suas vestes e revestiram-no de um surrado trapo de púrpura; aqui foi condenado às mais cruéis flagelações, foi coroado de pungentíssimos espinhos, puseram-lhe na mão uma reles cana em vez dum ceptro real; fazendo chacota, saudaram-no como um rei, e foi preferido a Barrabás. 3.o) O palácio de Pilatos compreende a Igreja da Flagelação, o lugar onde o Senhor foi amarrado a uma coluna e cruelmente flagelado; 4.o) O Lithostrotos, ou seja, a galeria de onde Pilatos apresentou ao povo Jesus coroado de espinhos e coberto com um farrapo de púrpura, proferindo as palavras: Ecce homo; esta galeria hoje atravessa a Via Dolorosa à guisa de ponte e está reduzida a um quartel de soldados. Deste palácio eu parti para fazer a via crucis; desce-se daqui para a rua, onde se faz a 2.a estação, isto é quando J. C. recebeu a cruz sobre os ombros. A escada que do Pretório de Pilatos conduz à rua foi levada para Roma.

Continuando a Via Dolorosa, chega-se ao lugar da 1.a queda, que é assinalada no chão por duas colunas. Dois passos adiante fica a Igreja do Espasmo, que foi erigida no sítio em que a V. Maria se encontrou com seu divino Filho que carregava a cruz às costas. Os turcos transformaram-na em casa de banho. Até aqui a rua é plana; começa a subir no lugar em que J. C. foi ajudado pelo Cireneu a levar a cruz.

A casa da Verónica é indicada por uma porta que dá para um estábulo. Diz-se que era onde ela vivia, mas os escritores mais críticos dizem que é o lugar onde a Verónica limpou o rosto de Jesus. Andando um pouco adiante, chega-se à porta judiciária que dá para o Calvário que, no tempo de Xto. ficava cerca de 400 metros fora de Jerusalém, enquanto hoje fica dentro. Por esta porta passou J. C. quando foi morrer por nós, e chama-se precisamente judiciária porque por ela passavam os condenados à morte; nesta mesma porta foi fixada a sentença de morte emanada contra ele da parte de Pôncio Pilatos. Várias vezes foi destruída; mas é ainda aqui conservada de pé, perto da porta, a coluna onde é tradição que esteve fixada a iníqua sentença.

O lugar da segunda queda não se conhece com exactidão. Por isso, faz-se esta estação da via crucis entre a porta judiciária e o lugar onde se encontrou com as mulheres de Jerusalém, que fica a cem passos dessa porta; a terceira queda sucedeu 10 passos antes do lugar da crucifixão e é assinalado por um penedo da rocha do Calvário, o qual, por desprezo aos cristãos, é cuspido pelos muçulmanos.

As outras estações fazem-se dentro do templo, no Calvário, como podeis deduzir do que vos disse sobre o Calvário. Esta via crucis – disseram-mo em Jerusalém os padres franciscanos – fê-la também o arquiduque Maximiliano, governador do reino Lombardo-Véneto; e fê-la de joelhos, derramando lágrimas de ternura, para edificação da toda a cidade de Jerusalém.

Depois da Via Dolorosa, visitámos o monte de Sião, sobre o qual se  encontra o Santo Cenáculo. Quão sublime é o monte de Sião! Sublime pela sua excelsa posição, sublime pelos seus profundos mistérios; fica situado a sudoeste de Jerusalém e domina o vale de Geena, a Aceldama e o vale dos Gigantes. Foi para o monte de Sião que David  transportou a Arca do Aliança, trazendo-a desde a casa de Obededon; aqui foi sepultado o próprio David; aqui J. C. celebrou a sua última Páscoa, lavou os pés aos Apóstolos, instituiu o sacramento da Eucaristia; aqui ordenou os primeiros sacerdotes e os primeiros bispos da sua Igreja.

Era neste monte que se encontrava o palácio de Caifás, aonde foi levado Jesus na noite em que foi preso; aqui Pedro renegou três vezes o seu Divino Mestre, estremeceu ao canto do galo, chorou amargamente a sua culpa; aqui passou Jesus a sua última noite no fundo de uma prisão; aqui foi acusado por falsas testemunhas, acusado de blasfemo, cuspido no rosto e esbofeteado e julgado réu de morte; e tendo sido depois crucificado, aqui, após a sua Ressurreição, apareceu pela primeira vez aos Apóstolos reunidos no Cenáculo e conferiu-lhes o poder de perdoar os pecados, instituindo o sacramento da Penitência; aqui lhes apareceu de novo, estando as portas fechadas, oito dias depois e fez tocar as suas sacratíssimas chagas ao incrédulo Tomé. Aqui fez a sua última aparição sobre a Terra antes de subir aos Céus no dia da Ascensão.

Foi ao monte de Sião que regressaram os discípulos, depois de havê-Lo acompanhado na sua viagem gloriosa até ao cimo do monte das Oliveiras; aqui perseveraram todos em oração durante mais de dez dias a fim de se prepararem para receber dignamente o Divino Paráclito, o Espírito Santo; aqui se juntou Matias ao colégio apostólico em lugar do traidor Judas; aqui, ao terminarem os dias de Pentecostes, desceu sobre eles o Espírito Santo em forma de línguas de fogo; aqui foram eleitos os primeiros sete diáconos; aqui se realizou o primeiro concílio da Igreja, presidido por S. Pedro; aqui foi nomeado S. Tiago Menor primeiro bispo de Jerusalém; aqui os apóstolos dividiram entre si o mundo que iriam evangelizar; aqui, segundo a opinião mais corrente, teve lugar a passagem de Nossa Senhora desta vida para a outra; aqui repousaram por muito tempo os ossos do protomártir St.o Estêvão; aqui, finalmente, dormem o sono da morte muitos cristãos de Jerusalém e muitos mártires da Igreja que neste lugar testemunharam com o seu sangue a origem divina da nossa religião.

Visitei quase todos os lugares notáveis que há no monte de Sião, e o primeiro de todos foi o Santo Cenáculo, onde J. C. instituiu o sacramento da Eucaristia; fica perto do túmulo de David, o qual, com a sua parte superior, chega ao Cenáculo. Este sublime santuário está já há três séculos em poder dos muçulmanos, que o utilizam para dormitório dos soldados; não se pode lá entrar, mas nós, com boas maneiras e generoso bacshish, entrámos com um missionário da Terra Santa; e eu pude adorar aquele sagrado legado da antiguidade, sem porém descer ao fundo do mesmo para ver o túmulo de David, porque há pena de morte para quem lá entrar. Não pude celebrar lá a missa, para não correr o risco de receber um gracioso beijo de alguma bala muçulmana, que me teria sido tão agradável. No Cenáculo há indulgência plenária.

Outras indulgências ganham-se noutros lugares do mesmo Cenáculo e fora dele, a saber: onde foi preparado o cordeiro pascal para a ceia do Senhor; onde J. C. lavou os pés aos seus apóstolos; onde desceu o Esp. Santo sobre os apóstolos; no alto do Sepulcro de David que dá para o Cenáculo; no lugar onde a sorte recaiu sobre Matias; onde o apóstolo S. Tiago foi eleito bispo de Jerusalém; onde os apóstolos se separaram para irem pregar o Evangelho por todo o mundo. Tudo isto se obtém no Cenáculo.

Visitei também o palácio de Caifás, que esteve quase completamente em ruínas mas foi reconstruído pelos turcos. Aqui há quatro indulgências, ou seja, no lugar onde o Senhor passou a sua última noite na prisão, onde Pedro o renegou, onde o mesmo apóstolo ouviu o canto do galo e onde permaneceu Nossa Senhora após ter tomado conhecimento da prisão do seu divino Filho. Oh, quantos insultos e ignomínias não suportou J. C. neste palácio, além de Pedro O ter renegado, de o terem cuspido, de lhe terem vendado os olhos, etc. ; aqui os que o haviam açoitado incitavam-no a adivinhar quem é que de entre eles o tinha feito, etc., etc.

Do palácio de Caifás passa-se ao lugar para onde foi transferido o corpo de St.o Estêvão, ao lugar onde é tradição ter S. João Evangelista celebrado a santa missa na presença da Virgem Maria, ao lugar onde Nossa Senhora morou, depois da ascensão de Jesus ao Céu e depois de, com S. João, ter voltado de Éfeso; aqui morreu e os hebreus, enquanto ia a sepultar, tentaram roubar o seu corpo; aqui obtém-se indulgência plenária. Alguns passos depois, está o palácio de Anás, onde, com uma luva de ferro, lhe deram um tremendo bofetão.

Que sentimentos despertaram em mim estes lugares sagrados, agora tão profanados, só Deus e aqueles que visitam Jerusalém podem compreendê‑lo. Existe ainda em Jerusalém a Igreja do Santo Salvador, onde habitam os padres franciscanos, que contém três antiquíssimos retábulos que foram para aqui trazidos do Cenáculo, quando este se tornou quartel dos turcos.

O palácio de Herodes fica sobre o monte Abisade; embora esteja quase destruído, gostei de o visitar, porque recorda a paixão de Nosso Senhor. Além destes sítios, em Jerusalém visitei a prisão onde esteve S. Paulo quando apelou a César, a Igreja de S. Tiago, que é uma das mais esplendorosas de Jerusalém. Está em poder dos arménios ortodoxos e nela me foi mostrado o lugar onde o apóstolo foi decapitado por ordem do rei Agripa. Visitei igualmente a casa de Maria, mãe de João Marcos, que está nas mãos dos sírios ortodoxos, a qual é celebre porque nela se venera o lugar onde S. Pedro foi bater quando foi libertado da prisão pelo anjo.

Entrei ainda no cárcere onde S. Pedro esteve encerrado por ordem do rei Agripa; e foi precisamente aqui que, no silêncio da noite, foi libertado pelo anjo. Os cristãos dos primeiros séculos haviam-na convertido em igreja. Agora podem ver-se lá bastantes restos que servem de oficina a alguns curtidores de peles: aquilo exala um tal cheiro que só por espírito religioso se consegue lá entrar. A casa do Fariseu fica sobre o monte Abisade: consiste nos muros de uma igreja dedicada a S. Maria Madalena em memória da sua conversão, que teve lugar nesta casa; agora está em poder dos turcos.

O templo da Apresentação da Nossa Senhora tinha sido construído em memória deste mistério no lugar onde Salomão erguera o palácio com madeira das florestas do Líbano; hoje é uma mesquita. E que direi do Templo do Senhor? Foi construído no mesmo sítio que ocupou o Templo de Salomão e dele não resta nem uma pedrinha; é indicado, contudo, o lugar exacto onde ficava e há aí indulgência plenária. Sobre ele edificou um magnífico templo o califa Omar, segundo sucessor de Maomé, depois da conquista de Jerusalém. Os cruzados, no século xi, converteram-no numa igreja; porém, Saladino declarou-o de novo mesquita (templo de Maomé) e assim continua até hoje. É o edifício mais majestoso que existe em Jerusalém e é de estilo mourisco. É proibido entrar lá dentro sob pena de morte, porque, além de ser templo de Maomé, encerra o harém das concubinas do paxá de Jerusalém.

Eu, porém, consegui passar todo o átrio na companhia de dois padres missionários da Companhia de Jesus; mas, apesar de um forte muçulmano seguir os nossos passos, pusemo-nos imediatamente em fuga, quando vimos os soldados armados. Abaixo do Templo de Salomão, há uma piscina probática que é um das ruínas mais antigas que existem em Jerusalém; data nem mais nem menos do tempo de Salomão; embora muito deteriorada, o seu nome basta para recordar a prodigiosa cura daquele paralítico que jazia doente havia 38 anos e que aqui foi curado pelo Redentor.

Antigamente servia para lavar as vítimas que se iam imolar no Templo. Actualmente está cheia de sicômoros e de outros arbustos; comunica com o templo da Apresentação de Nossa Senhora de que vos falei acima. Este tem enormes pedras que, segundo os eruditos escritores da Terra Santa, serviram certamente para os muros da antiga Jerusalém. À volta destas pedras, os hebreus vão lamentar-se todas as sextas-feiras, ao pôr-do-sol; é um espectáculo digno de ser visto!

Estes são os lugares notáveis que visitei em Jerusalém. Há muitos outros; porém, a alguns deles muitos esclesiásticos de devoção pouco esclarecida [beatices?] querem dar-lhes celebridade, e como eu não acredito nela, pois não tenho conhecimento fundamentado, prefiro passá-los em silêncio. Aos que vos descrevi e descreverei dou todo o crédito, uma vez que a sua autenticidade se baseia na mais antiga tradição reconhecida pelos maiores escritores e pela autoridade da Igreja, que outorga indulgência plenária cada vez que se visitam.

Agora saiamos de Jerusalém, e contemplai comigo os lugares dignos da consideração de um cristão. E primeiro, saindo pela porta de St.o Estêvão, deixa-se 40 passos à esquerda a porta Áurea, que está fechada com um muro. Chama-se porta Áurea por excelência em memória da entrada solene que J. C. fez no dia de Ramos.

Também Heráclio, depois de vencer Cosroe, rei da Pérsia, entrou por essa porta com o reconquistado troféu do lenho da cruz. É a mais bela e arquitectónica que existe em Jerusalém; e eu nunca vi uma melhor. Mas os turcos fecharam-na e muraram-na porque existe entre eles uma antiga tradição, segundo a qual os francos (assim se chamam no Oriente os europeus) conquistariam Jerusalém e entrariam triunfantes por essa porta. Depois, descendo para o vale (de Josafat) pela ladeira do monte Moria, antes de chegar ao fim da descida, há uma rocha muito informe, onde foi lapidado St.o Estêvão; treze passos mais acima fica o lugar onde estava Saulo (que mais tarde foi o apóstolo S. Paulo) a guardar as roupas dos lapidadores; e à mão esquerda se mostra o lugar onde a imperatriz Eudóxia mandou edificar um templo ao glorioso protomártir. Uma vez no fundo do vale, atravessa-se a torrente de Cedron, que divide o vale de Josafat, e entra-se em Getsémani.

Eu lancei o meu olhar para este vale, contemplando várias vezes o seu comprimento e largura; será aqui – perguntava a mim mesmo – que um dia serei julgado pelo Eterno Juiz? Será aqui que se juntarão todos os povos da Terra no Juízo Final? Ditar-se-á aqui a inapelável sentença da vida ou da morte eterna para todos aqueles que existiram, existem e existirão? Aqui a Terra abrirá os seus profundos abismos para tragar os réprobos destinados ao inferno, e daqui voarão os eleitos para o Céu?

Ó vale, terribilíssimo vale! Estende-se entre o monte das Oliveiras e o Moria e não se gasta nem um quarto de hora a percorrê-lo em comprimento; começa no Sepulcro da Virgem e vai terminar no túmulo de Josafat, rei de Judá, a qual se conserva intacto por estar escavada na rocha viva. O vale de Josafat é percorrido pela agora seca torrente de Cedron e está todo cheio de ruínas de Jerusalém. O seu comprimento é, mais ou menos, o alcance de um tiro de espingarda.

A norte deste vale, há o sepulcro de Nossa Senhora, o qual faz parte do Getsémani; esse sepulcro é um templo quase todo debaixo da terra, ao qual se desce por uma majestosa escadaria de 47 degraus. Neste sepulcro esteve Maria Virgem três dias, antes da sua assunção ao céu com o corpo. Tendes conhecimento do facto dos Apóstolos e de Tomé, que não teve a graça de ver Maria morta. O sepulcro é aproximadamente como o de J. C., e está em poder dos gregos ortodoxos, que todos os dias celebram longos ofícios. Neste mesmo templo subterrâneo encontram-se ainda os sepulcros de S. José, de St.a Ana e de S. Joaquim; enquanto nestes últimos há indulgência parcial, no de Nossa Senhora há indulgência plenária.

Passado este lugar e entrando em Getsémani, encontra-se a gruta da agonia, porque aí se retirou o Senhor a rezar ao eterno Pai na noite que precedeu a sua morte; aí se sentiu oprimido por uma tristeza tão mortal que entrou em agonia e suou sangue vivo. À distância de uma pedrada desta gruta, fica o horto de Getsémani propriamente dito; tanto a gruta da agonia como o sepulcro de Nossa Senhora e outro lugar de que falarei pertencem a Getsémani; mas os frades fecharam com um muro parte de Getsémani, que eles chamam horto de Getsémani, para proteger oito oliveiras antiquíssimas, cujos troncos – reza a tradição – existiam no tempo de J. C. Não sei se isso é verdade; certo é que têm um tronco mais […] vezes maior que o das nossas oliveiras.

O lugar onde Cristo se separou dos seus discípulos está indicado fora da cerca do Getsémani propriamente dito; a sete passos de distância, fica o lugar onde Judas com um beijo atraiçoou J. Cristo. Voltando depois ao vale, quase ao fundo, e caminhando pelas margens da torrente seca de Cedron, vê-se um sinal de um joelho impresso num duro penedo no meio do leito da torrente. Diz-se que este sinal impresso na pedra foi deixado por J. C. na noite em que, preso no horto de Getsémani, empurrado a golpes pelos soldados, caiu nesse lugar. Quem beija este sinal do joelho de J. C. obtém indulgência plenária, o mesmo acontecendo no horto de Getsémani e na gruta da Agonia, onde eu celebrei missa mesmo no lugar onde J. C. suou sangue, onde há um belíssimo altar que está em poder dos católicos.

A pouca distância do sinal do joelho de J. C. há uma grande caverna, onde, depois da morte do Divino Mestre, se retirou S. Tiago apóstolo, com o firme propósito de não mais comer nem beber até que O não visse ressuscitado. Antes de chegar a esta caverna, há o sepulcro do rei Josafat, que é feito de uma só peça, e é como a Igreja de S. Roque, em Limone; também é ali o sepulcro do rebelde Absalão, que ele mandou construir para si em vida com a esperança de lá repousar quando morto; mas enganou-se. É uma maravilha: eu estive lá no meio; está a seguir a urna de Zacarias e mil lápides sepulcrais que guardam as cinzas daqueles infelizes judeus que, de todas as partes do mundo, vieram terminar seus dias a Jerosolima, a fim de que os seus ossos descansassem à sombra daquele templo que não existe, nem existirá nunca, a não ser na sua imaginação.

Tudo isto se situa no vale de Josafat, que está no sopé do monte das Oliveiras. Oh! Que querido é o monte das Oliveiras! Quão esplêndida vista se goza do cimo do seu elevado cume! Que consoladores são os mistérios onde tudo está assinalado! Este monte foi o oratório do Senhor, a cátedra dos seus divinos ensinamentos, o testemunho das suas profecias sobre Jerusalém e serviu-Lhe de escada para subir ao céu. Agora eu conduzir-vos-ei como pela mão a contemplá-lo com a vossa imaginação, pois é digno da contemplação de um fervoroso cristão.

O monte das Oliveiras eleva-se a leste de Jerusalém em frente do Moria, pelo que domina o vale de Josafat. Atravessada, pois, a torrente de Cedron junto ao sepulcro de N. Senhora, e passando a norte rente ao horto de Getsémani, encontra-se, no início da subida, um penhasco duríssimo, o qual recorda o lugar onde se sentava triste e meditabundo o inconsolável Tomé, quando a divina Mãe, já subida ao Céu, lhe atirou a sua faixa, como contam, entre outros, Nicéforo e Juvenal, bispo de Jerusalém.

A meio do monte e voltando à mão direita um tiro de fuzil, chega-se ao lugar onde J. C. chorou sobre Jerusalém, o qual está assinalado por uma torre derrubada, outrora campanário de um templo aqui construído em memória do pranto que J. C. derramou sobre a cidade prevaricadora. Daqui vê-se Jerusalém inteira: eu contemplei-a; oh, como me pareceu desolada, triste, esta cidade que era a mais célebre do mundo! Oh! Como perdeu a sua beleza esta filha de Sião! Caiu em tamanha desolação, que leva até às lágrimas os corações mais duros, pensando naquilo que era no tempo da redenção.

Subindo um pouco mais, há uma caverna perfurada na rocha dentro das entranhas do monte das Oliveiras, que serve de vestíbulo a uma fila de sepulcros subterrâneos  chamados dos Profetas. Mais acima destes sepulcros está o lugar onde J. C. esteve sentado quando predisse a seus discípulos as muitas tribulações, as guerras sangrentas, as perseguições de toda a espécie, a abominação e a desolação que precederiam o último dia, o do Juízo Universal. Detive-me aqui por uns instantes e, contemplando o aspecto do subjacente vale de Josafat, imaginei o imponente espectáculo que oferecerá todo o género humano reunido neste vale para receber a sentença final. Cinquenta passos antes de chegar ao cimo, fica o lugar onde os Apóstolos se retiraram para compor o Credo, antes de se dispersarem pelo mundo; neste lugar há uma cisterna, dentro da qual estavam escavadas 12 pequenas abóbadas, em memória dos 12 apóstolos congregados.

A pouca distância encontra-se o sítio onde J. C. ensinou o Pai-nosso aos doze apóstolos e onde em tempos houve uma igreja. Finalmente, eis-me no cimo do monte das Oliveiras; mas onde está o lugar donde J. C. subiu ao Céu? Há aqui muitas casitas pobres e no meio um templo bastante bem conservado. No meio deste templo fica o sítio da ascensão.

Mediante generosa gratificação, um asceta turco abriu-nos a porta de um pátio, no meio do qual está este templo sem portas. No pavimento vi um pequeno quadrado de pedra, que rodeia um duro penhasco, no qual está impressa a planta do pé esquerdo de um homem, voltada para ocidente. Esta marca deixou-a J. C. quando subiu ao céu. Eu beijei e voltei a beijar reverentemente este último vestígio que imprimiu na Terra o Divino Redentor, para ganhar a indulgência plenária que é concedida. A 70 passos deste lugar, caminhando pelo cimo do monte das Oliveiras, visitei o lugar chamado Viri Galilei, que corresponde ao sítio onde estavam os Apóstolos, quando, regressando desse monte e tendo parado estáticos a olhar para o céu, lhes apareceu um anjo.

Pelo outro lado, à direita, está Betfagé, povoação em ruínas, situada no lugar onde o Senhor mandou a seus discípulos que desatassem o potro que estava junto a um castelo vizinho, para fazer a sua entrada triunfal em Jerosolima no dia de Ramos. Daqui contempla-se perfeitamente o monte onde J. C. jejuou quarenta dias, a vastíssima planície de Galgala, o rio Jordão, o mar Morto, onde surgia a Pentápolis, o monte dos Francos, as alturas de Ramatzaim Sophim (Jericó) e muitos outros lugares famosos na Escritura, que depois visitarei mais de perto.

Queria mandar-vos uma garrafa de água do Jordão com os terços; mas como estes vão chegar cerca de um mês depois da Páscoa, como vos direi mais adiante, e se estragaria, mudo de ideia e levo-a a uma pessoa de Alexandria que me pediu uma pequena garrafa.

Tomando agora o caminho do sepulcro de Josafat em direcção ao sul de Jerusalém, chega-se à piscina de Siloé, famosa porque J. C. curou nela o cego de nascença; eu bebi dela e admirei o fluxo e refluxo de suas águas sem conseguir absolutamente perceber porquê. Não muito longe da piscina de Siloé, subi pelas raízes de uma antiquíssima amoreira situada no meio do caminho, que indica o sítio onde foi serrado ao meio o profeta Isaías com uma serra de madeira, por ordem do rei Manasés.

Vinte passos mais abaixo deste lugar, vi o poço de Neemias que tem mais de 300 pés de profundidade e uma água fresquíssima. Chama-se assim porque Neemias, depois da escravidão de Babilónia, mandou tirar deste poço água densa com a qual aspergiu a lenha e as vítimas já colocadas sobre o altar para o sacrifício, as quais se incendiaram prodigiosamente ao nascer o Sol, como diz a Escritura.

Neste poço esconderam os sacerdotes o fogo sagrado, quando da  destruição da Cidade Santa por Nabucodonosor. Aqui o vale de Siloé une-se com o de Ben Hinnom, que é a Geena do Evangelho. Este vale é escuro, profundo, solitário, triste e melancólico, pavoroso; Jesus Cristo fê-lo símbolo do Inferno; eu percorri-o todo e vi o sítio onde foi erigido o ídolo de bronze, Moloc, que tinha no cimo um buraco, onde se lançavam as crianças vivas para queimá-las em honra de Moloc. Neste vale há lojas cavadas na rocha viva, onde os Apóstolos se esconderam quando viram o seu Divino Mestre feito prisioneiro no horto de Getsémani.

Depois fui a Aceldama, aquele campo que foi comprado com o preço do sangue de J. C. É um espaço onde cabem duas oliveiras. Saindo pela porta de Efraim, encontra-se a gruta de Jeremias, onde se retirou o compungido profeta depois da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, a chorar sobre as crepitantes cinzas da sua querida cidade, e chorando compôs aquelas patéticas lamentações e profecias que se lêem na Semana Santa.

Abaixo desta, encontra-se o cárcere do mesmo Jeremias: uma cisterna, para onde é tradição que o profeta foi atirado por ordem do rei Sedecias, por castigo de ter falado livremente ao povo de Israel da parte de Deus. Dirigindo-me a ocidente, subi o monte Gion, memorável porque sobre ele foi ungido e sagrado o rei Salomão. Descendo por detrás da muralha de Jerusalém, vê-se um tanque muito grande e magnífico de 240 passos de comprimento, 105 de largura e 50 de profundidade, todo cavado na rocha viva. Chama-se piscina de Betsabé, porque Salomão a mandou construir em honra dela e para seu serviço.

Muitas outras coisas vos poderia contar sobre Jerusalém e arredores, mas já chega, porque estou cansado de escrever. Citei-vos só alguns monumentos religiosos autenticados e confirmados pela Igreja, que fez de todos os que vos descrevi fontes das mais amplas indulgências. Jerusalém, hoje, não é maior que duas vezes Bréscia. As suas ruas são estreitas, íngremes, sujas: faz  pena! É sede de muitos bispos ortodoxos, de um paxá turco e do patriarca que nos acolheu muito gentilmente. Está fortificada, mais que Verona, e permite fazer uma grande ideia do que foi em tempos.

Há oitenta missionários católicos e mais de cem entre gregos e arménios ortodoxos. Agora chegaram os russos protestantes e os judeus; os primeiros têm até um bispo. No meio desta confusão de cultos, não se pode fazer nada pela conversão; porque se trata dos turcos, há pena de morte para quem se converter; e os outros hereges, com abundância de dinheiro, impedem os seus seguidores de se tornarem católicos. Por isso, acontece que alguns infelizes católicos, quando não conseguem dos missionários o dinheiro ou sustento que pretendem, convertem-se ao protestantismo, como aconteceu este ano.

Todos os católicos da Palestina são pobres e a maior parte são mantidos pelos conventos dos franciscanos. Mais à frente, falar-vos-ei de outros lugares que visitei na Palestina, que merecem a vossa atenção e consideração.

                                                                     P.e Daniel Comboni, Jerusalém, 12 de outubro de 1857

 

Por: Audácia