Vamos ser mecenas

Janeiro 2016 / Mala da Alice

Pag14_A

Nos primeiros dias do ano estamos sempre cheios de ideias e com vontade de fazer coisas extraordinárias, coisas que nunca fizemos, como se um horizonte mais limpo e mais lavado se estendesse à nossa frente.

Também eu hoje trago aqui uma ideia que, à partida, até pode parecer estranha e provocar sorrisos meio incrédulos em quem me lê: E se nós nos tornássemos donos de uma obra-prima da pintura portuguesa? Se daqui a uns tempos entrássemos no Museu de Arte Antiga e, diante de um quadro de Domingos Sequeira, pudéssemos dizer «há um espaço deste quadro que é meu»? Eu explico a história desde o princípio. Domingos Sequeira foi um dos maiores pintores portugueses do século XIX. Apesar das suas origens humildes – o pai era barqueiro –, cedo revelou as suas aptidões artísticas, de tal maneira que a rainha D. Maria I lhe dá uma pensão em 1788 que lhe permite, aos 20 anos, ir estudar para Itália. Teve logo grande aceitação no meio artístico, foi professor e ganhou muitos prémios com a sua pintura. Voltou para Lisboa sete anos mais tarde e, em 1802, foi nomeado pintor da corte.

Mas as suas profundas convicções liberais levaram-no ao exílio: primeiro em França e, a partir de 1826, em Roma. Morreu em 1837, sem nunca ter regressado a Portugal.

Entre as obras que pintou, durante o seu exílio, conta-se «A Adoração dos Magos», uma tela panorâmica gigante que retrata a chegada dos Reis Magos a Belém, feita para uma exposição em Roma. No ano da sua morte, um académico italiano, ao falar da sua obra, referiu-se a esta tela como sendo «un capolavoro», ou seja, uma obra-prima.

Mas a família ficou em más condições financeiras e a filha teve de se desfazer da obra que, em 1845, acabou por ser vendida ao duque de Palmela.

Desde então o quadro tem estado nas mãos da mesma família – que agora decidiu vendê-lo por 600 milhões de euros.

Claro que ninguém tem dúvidas que o seu lugar é no Museu de Arte Antiga.

Mas também ninguém tem dúvidas que, sem ajuda, o Museu não consegue comprá-lo.

Então surgiu esta ideia – que já se pratica em vários países mas que, por cá, é inédita – de levar toda a gente a participar na compra (chama-se a isto fundraising…)

Se toda a gente colaborar na compra de um píxel (que equivale a seis cêntimos). Domingos Sequeira vai finalmente poder ficar no lugar que lhe é devido.

Possivelmente haverá muita gente que pode comprar mais pixéis – tudo agora depende do que se pode gastar e da vontade em participar neste movimento coletivo.

Porque nós não precisamos apenas de pão para alimentar o corpo, precisamos igualmente – e de que maneira! – de pão para alimentar o espírito.

Que seria de nós sem a arte? Que seria de nós sem a literatura, a música, a pintura, o cinema, o teatro, etc., etc.?

O fundraising prolonga-se até dia 30 de abril, podendo ser feito de várias maneiras, uma das quais é deixar a contribuição numa caixa que se encontra no átrio do Museu de Arte Antiga – aproveitando, já agora, para visitar o museu…

Se quiserem saber tudo acerca desta extraordinária ideia, basta consultarem o sítio sequeira.publico.pt. Está lá tudo.

Vá, nestes primeiros dias do ano, vamos fazer uma coisa inédita neste país e contribuir para que uma obra-prima da pintura portuguesa fique no lugar que merece, para poder ser desfrutada por todos nós.

Ou, como diz o slogan da campanha, «vamos pôr o Sequeira no lugar certo».

Por: Alice Vieira

Deixe uma resposta