Sois o meu povo

Março 2014 / Invencíveis

Antes de mais nada, o missionário é uma pessoa que, em liberdade, descobre o amor que Deus tem a ele e a toda a humanidade. Esta experiência alegre e libertadora ajuda-o a compreender que falar de Jesus é, antes de tudo, ir onde o povo está e caminhar com ele para compreender as dúvidas, inquietações, frustrações e anseios. O missionário sente e reconhece que é aí que Deus se encontra com o seu povo.

Na relação de Deus com o Seu povo, principalmente nos momentos de escravidão e opressão, podemos ver claramente como Deus ama a liberdade dos seus filhos e filhas e se empenha na sua libertação: «Eu sou o Deus de teu pai […] vi a tua opressão no Egito, ouvi o teu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os teus sofrimentos. Desci a fim de caminhar contigo para a terra da liberdade, longe da mão dos egípcios e para te fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel […] o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles» (Ex 3).

 

Deus vive entre nós

Ao refletir sobre o grande desafio lançado pelo Papa Francisco para vivermos a nossa identidade missionária como uma aposta urgente e inadiável indo ao encontro dos outros, viver e trabalhar em comunhão com eles, lembrei-me da história de um missionário que trabalhou toda a sua vida em favor da libertação e dignidade dos povos africanos.

Um dia, um missionário chegou a uma aldeia do interior africano que revelava estilos de vida cheios de luz e de cor e apesar de o conhecimento de Jesus parecer bastante rudimentar, a aldeia vivia numa dimensão de solidariedade, respeito e cultivo do bem comum tipicamente cristãos.

Certa vez, esse missionário falava entusiasticamente ao povo sobre Jesus Cristo e do Seu amor gratuito e universal a toda a humanidade. Até que um ancião levantou a voz e disse: «Mas, missionário, eu conheço bem esse homem de quem nos está a falar. Ele um dia veio visitar-nos e nunca mais nos deixou: Viveu no meio de nós e como um de nós. Durante muitos anos trabalhou, caminhou connosco, amou os nossos filhos, escutou as nossas dores e compreendeu o nosso desejo de felicidade; assistiu-nos nas nossas tarefas, compreendeu-nos e iluminou-nos nos nossos conflitos, fortaleceu-nos quando estávamos mais frágeis, guiou-nos quando nos sentíamos perdidos e, por fim, morreu como um dos nossos pais. Eu sei que o seu nome não era Jesus mas, na verdade, esse é a pessoa de quem nos estás a falar. Sim, missionário, tens razão… tudo o que nos dizes é verdade; não nos estás a enganar. Jesus é verdadeiramente como nos estás a falar. Ele continua bem vivo na nossa comunidade, entendendo as nossas dores e fortificando-nos nas nossas lutas. Ele é, na verdade, o Deus que deu toda a sua vida por nós e nos mostrou um caminho que vale a pena trilhar. Nele, somos uma verdadeira família.»

 Comboni em nós

Comboni tinha bem claro na sua mente e no seu coração que ser missionário era antes de mais nada ser sinal da proximidade de Deus e do seu amor para com toda a humanidade. Ou seja, colaborar com Deus na obra de libertação de todos os que sofriam na carne o peso e as atrocidades provocadas pela exploração e injustiça humana. Numa carta a sua mãe, explica: «Oh, se visses a miséria que há nestas paragens! Se tivesses cem filhos, dá-los-ias todos a Deus para virem trazer conforto a estas pobres almas. Agradece porém ao Senhor, porque te deu a graça de lhe entregares tudo o que tinhas.»

Noutra carta grita: «Dá-me para chorar […] nesta imensa solidão, parece-me ouvir a voz do Divino Pastor, que procura a pequena ovelha negra perdida […] Abri o vosso santíssimo coração também às infelizes almas da África Central, que ainda jazem nas trevas e nas sombras da morte […] Tenho que informar sobre a abolição da escravatura […] do meu grito de guerra contra a escravidão que a partir dela ressoou na África Central.»

Por: Francisco Machado

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