Sheik Humarr Khan: herói e médico

Novembro 2014 / Personagens

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Era o único especialista em febres hemorrágicas na Serra Leoa. A sua morte, em julho passado, deixou mais vulnerável a África Ocidental, onde o vírus do ébola infeta cinco pessoas a cada hora e mata perto de metade dos contagiados.

 

Foi em março passado que, na Guiné-Conacri, começou o mais recente surto de ébola. O contágio alastrou rapidamente a países vizinhos: Libéria, Serra Leoa, Nigéria e Senegal. Nos dois primeiros regista-se o maior número de infetados e de mortes. E esta é já a epidemia mais grave desde que o primeiro caso identificado desta febre hemorrágica altamente contagiosa foi registado, em 26 de agosto de 1976, na RD Congo.

 

Seguiu as pisadas do seu herói

Sheik Humarr Khan nasceu em Lungi, na Serra Leoa, em março de 1975. Cresceu numa família humilde, mas sonhou alto. Quis seguir as pisadas do Dr. Kamara, o seu herói de criança. Formou-se em Medicina. Aos 39 anos, coordenava cientistas africanos na prevenção e tratamento de alguns dos agentes patogénicos humanos mais perigosos. Salvou centenas de vidas a lutar contra a febre de Lassa – uma doença semelhante ao ébola que mata 5000 pessoas por ano – na sua clínica em Kenema, no Sudeste do país.

Quando o contágio com o vírus do ébola foi assinalado, o Governo serra-leonês pediu-lhe que encabeçasse a luta contra a epidemia. A Serra Leoa tem seis milhões de habitantes. Contudo, conta apenas com 136 médicos e 1017 enfermeiros. É a nação mais pobre do mundo.

 

«Quem é que virá para me substituir?»

Extrovertido e brincalhão, o Dr. Khan só tinha tempo para os seus doentes. No final de julho, contraiu o ébola. O vírus transmite-se pelo contacto direto com os fluidos corporais de pessoas infetadas. O pessoal médico, familiares, voluntários, as pessoas que lidam com os doentes são os mais expostos ao risco de contágio. As vítimas têm vómitos, diarreia e, nos estádios finais da doença, hemorragias internas e externas. Foi assim que morreu o Dr. Khan. Ele é um dos mais de 100 trabalhadores de saúde africanos que pagaram o preço supremo de lutar contra o ébola.

Um médico e um professor norte-americanos que trabalharam com o Dr. Khan testemunharam que ele conhecia os riscos melhor do que ninguém… Mas, quando se trabalha 18 horas por dia em instalações que estão sobrelotadas, a infeção é inevitável. Ele, por sua vez, recusou-se a abandonar a clínica, em atenção à falta de pessoal e apesar de vários enfermeiros terem adoecido. «Se me vou embora, quem é que virá para me substituir?», dizia.

 

Outros seguirão os seus passos

O presidente da Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, saudou o Dr. Khan como herói nacional. E a sua família criou uma fundação com o nome dele para ajudar a pagar a formação dos futuros profissionais de saúde e prestar apoio às famílias dos médicos e enfermeiros que perdem a vida em trabalho.

Por: Jorge Ferreira

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