Quando a bola é de ferro

Janeiro 2015 / Campeões

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Os escândalos à volta do Mundial 2022 não param de criar problemas à Federação Internacional do Futebol (FIFA), a ponto de o presidente Sepp Blatter ter admitido que foi um erro atribuir a organização da prova ao Catar. Há fortes indícios de corrupção na escolha deste país riquíssimo do Médio Oriente, onde não existem condições para disputar jogos de futebol sem realizar avultados investimentos, incluindo a construção de estádios… com ar condicionado. Além dos estádios, as imensas obras necessárias para o Catar poder receber um evento com a dimensão do Mundial de futebol têm motivado graves acusações de organizações internacionais que defendem os direitos humanos.

 

Indiferentes ao apelo do Papa Francisco neste Dia Mundial da Paz, «Não mais escravos, mas irmãos», as empresas responsáveis pelas obras no Catar são acusadas de recorrer a trabalho escravo, oriundo de países pobres da Ásia.

O caso mais grave terá cobertura de governantes. A Amnistia Internacional (AI) calcula que estejam no Catar cerca de 3000 trabalhadores norte-coreanos disponibilizados pelo próprio regime de Pyongyang, que os utiliza para captar divisas (moeda estrangeira utilizada para as importações). Mais de 90 por cento do ordenado destes trabalhadores é retido pelo Governo norte-coreano, denunciou a AI.

No Catar não existe grande respeito pelos direitos dos trabalhadores, quase todos estrangeiros. A população autóctone é de apenas 300 mil pessoas, mas vivem mais de dois milhões no emirado. Mais de milhão e meio de imigrantes são obrigados a entregar o seu passaporte ao empregador e é este quem decide se assina ou não a autorização de saída do país. Por este motivo, o relatório da AI fala de «danos psicológicos graves» e de alguns suicídios.

 

Um problema maior tem sido a atitude da FIFA, recusando interferir em questões políticas ou sociais e lidando, sem pruridos, com regimes ditatoriais ou que não respeitam os direitos humanos. Com o argumento de que «a FIFA não é as Nações Unidas (ONU); só trata de desporto», o futebol tem aberto portas fechadas ao mundo mas também tem permitido injustiças.

Desde 2013, têm surgido denúncias relativas às condições inaceitáveis a que os imigrantes trabalhadores na construção são sujeitos no Catar, onde a temperatura atinge os 50 graus, ao meio-dia, no verão.

O britânico The Guardian escreveu que 44 nepaleses morreram entre junho e agosto últimos devido a ataques cardíacos e acidentes de trabalho e relatou a falta de comida e água entre os operários, tratados «como gado». Várias organizações dão conta de horários de trabalho extensos e condições de segurança mínimas. Há quem aponte o risco de 4000 (!) mortes na construção dos estádios.

Por: Luís Óscar

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