Porque se corre tanto em África?

Março 2017 / Campeões

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Longe vão os tempos em que Carlos Lopes liderava uma temível equipa de fundistas do Sporting, iniciando a série de 14 triunfos leoninos na Taça dos Campeões Europeus de Crosse. Foi nas décadas de 1970 e 1980 que Lopes alcançou três títulos mundiais (1976, 1984 e 1985) e duas medalhas de prata (1977 e 1983) na prova também conhecida por corta-mato. Desde Lopes, nunca mais o título mundial – em disputa no dia 26, em Campala (capital do Uganda) – deixou de pertencer a africanos. Mais: desde o inglês Hutchings (2.º em 1989), apenas dois não africanos subiram ao pódio (Paulo Guerra, 3.º em 1999, e o ucraniano Lebid, 2.º em 2001). Ou seja, 82 das 84 medalhas foram para africanos.

 

De onde vem esta supremacia africana (sobretudo queniana e etíope) nas corridas de fundo? Apontam-se particularmente dois fatores. O fator social faz com que as crianças “nasçam correndo”, tal como os brasileiros “dormem” com bolas de futebol. E o fator genético torna os leste-africanos máquinas de correr muito eficientes no consumo de oxigénio, descendentes de tribos das planícies, que só sobreviviam percorrendo longas distâncias em busca de alimento e água ou para se protegerem de predadores. Desde 1981, por equipas, as 33 edições do Mundial de Crosse foram ganhas 24 vezes pelo Quénia e nove pela Etiópia.

Em femininos, razões culturais atrasaram um pouco o domínio. Depois de Albertina Dias ter sido campeã (em 1993) ainda houve quatro não africanas a intrometerem-se entre etíopes e quenianas. Mas, após 1991, por equipas, só Portugal (em 1994) impediu Etiópia ou Quénia de vencerem onze vezes cada. Em juniores, em ambos os sexos, o panorama é idêntico. Nas raparigas, desde o início, em 1989, quando o bronze foi das portuguesas, Quénia, por 15 vezes, e Etiópia, por dez vezes, repartiram os títulos.

 

A correr em casa, apesar de ter acabado de completar 28 anos, o herói nacional ugandês Stephen Kiprotich pode estar demasiado velho para se bater com a nova vaga de corredores… quenianos e etíopes.

Kiprotich, sétimo filho de agricultores de uma aldeia na fronteira com o Quénia, cresceu inspirado pelos relatos da única conquista olímpica do Uganda, protagonizada por John Akii-Bua, nos 400 metros barreiras em Munique 72.

Uma doença não diagnosticada na infância impediu-o, até, de ir à escola. Na adolescência, insistindo na sua paixão, era frequente terminar as provas com voltas de atraso para os da frente. Tudo se alterou quando resolveu mudar-se para o vale do Rift, no Quénia, local de concentração de grandes corredores quenianos de longa distância.

Foi curiosamente no Mundial de Crosse, em Fukuoka 2006, ao terminar em 24.º, que Kiprotich teve a certeza de que podia ir longe. Em Londres 2012 tornou-se o segundo ugandês a conquistar ouro olímpico, vencendo a maratona, prova onde também foi campeão mundial no ano seguinte, em Moscovo.

Por: Luís Óscar

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