Perdoar para construir

Janeiro 2018 / Parábolas da vida

 

Na entrada do novo ano, não devemos esquecer o passado. Coisas boas e más aconteceram; sucedeu inclusivamente que um evento terrível tivesse vindo a dar causa a um momento belo. Estamos a pensar nos incêndios que ocorreram em junho e outubro de 2017 e no comportamento dos familiares das vítimas.

 

Normalmente, vemos um acontecimento como tragédia quando apenas por acaso ou sorte não somos nós ou quem nos está próximo os intervenientes. Ora, se este efeito de espelho imaginário fosse necessário para nos impressionarmos com o sucedido em Pedrógão Grande e no infernal domingo de outubro, no norte e centro de Portugal, então, neste caso, esse fenómeno funcionaria com uma força pouco vista. Pois todos nós temos ou conhecemos quem tenha família que vive em zonas de pinhal, de eucaliptal.

 

A dor uniu-os a todos

Muito provavelmente, alguns dos leitores da Audácia habitam zonas com estas características. Torna-se-nos pois muito mais acessível abeirarmo-nos da posição daqueles que sofreram com a perda dos seus entes queridos.

Os incêndios do ano passado tiveram o efeito, já frequente, de destruição da floresta, de casas, enfim, de bens materiais. Todavia, desta vez, os efeitos catastróficos ganham dimensões nunca antes vistas, pois morreram 107 pessoas nos incêndios: crianças, mulheres, homens, filhos, pais, maridos e mulheres.

 

Uma lição de vida

Aparentemente, as consequências dos incêndios do verão e outono passados foram possibilitadas por uma série de erros cometidos por aqueles que deveriam gerir estas situações de crise. Por conseguinte, seria natural que nas populações e nos familiares das vítimas nascesse e crescesse um sentimento de revolta e de vingança contra as autoridades que coordenaram o combate aos incêndios. Tudo pareceria pois encaminhar-se para um cenário de perda absoluta.

Foi então que algo de muito belo sucedeu. Depois do choque inicial, alguns familiares das vítimas começaram a reunir-se. Primeiro, certamente se terão apenas encostado uns nos outros, pois a partilha também alivia. Depois, sob a liderança de Nádia Piazza, uma mulher que havia perdido o filho de 5 anos e outros familiares, decidiram ligar-se através da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG). Logo veio o passo seguinte: com a arte que nos faz humanos e únicos, converteram o sofrimento em coragem, com o intuito de fazer justiça. Mas não uma justiça de vingança, cega e vazia; antes, uma justiça que, assente no perdão, se empenha em construir, obter consensos, juntar esforços e contributos, para que o que se passou nem seja esquecido nem volte a acontecer. Uma lição bem viva e inesquecível é o que nos oferece esta Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande.

Por: Miguel Pinto Monteiro

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