Pequeno fóssil conta história grande

Março 2018 / Ciência

 

A descoberta quase parecia irrelevante. Afinal, tratava-se de um pequeno fragmento de maxilar com pouco mais de meia dúzia de dentes. Claro que era um fóssil antigo, isso via-se bem, mas o que os arqueólogos que fizeram o achado na pequena gruta de Misliya, no Monte Carmelo, em Israel, não podiam imaginar era que o estudo daquele osso humano ia obrigar a rever a história da evolução humana – e a rescrevê-la.

Foi isso que eles fizeram, em janeiro deste ano. Com esta descoberta, ficámos agora a saber que a saída de África – o Out of Africa, a expressão inglesa com que se vulgarizou essa jornada inicial – da espécie humana moderna, o Homo sapiens, aconteceu pelo menos 50 mil anos antes do que se pensava até hoje. Ou seja, aconteceu entre há 200 mil e 220 mil anos.

A datação do fragmento de maxilar encontrado em Israel mostrou que ele tem entre 177 mil a 194 mil anos, o que é muito mais do que a idade dos fósseis de Homo sapiens mais antigos que antes se conheciam, encontrados fora de África, igualmente em Israel e também numa zona remota da China, chamada Daoxian, e que têm, ambos, entre 90 mil e 120 mil anos.

Não há dúvida: o pequeno pedaço de maxilar de Misliya é o mais velho de todos e, na verdade, vem resolver um mistério que já andava ar e que, em 2017, se adensou muito, por uma razão simples, que foi a descoberta, em Marrocos, no norte de África, dos fósseis mais antigos de sempre de Homo sapiens, que têm 315 mil anos.

Esse achado demonstrou que os humanos modernos têm, afinal, mais cem mil anos do que se pensava: a nossa espécie tem pelo menos 300 mil anos, e não os 200 mil de que falavam os manuais anteriores a 2017. E agora vem o mistério: se a espécie humana moderna surgiu em África há 300 mil anos, porque teria tardado tanto em lançar-se nessa jornada primordial out of Africa?

Quando divulgou, em janeiro, a descoberta e as revolucionárias conclusões que ela implica, a equipa de arqueólogos não podia estar mais satisfeita. «Misliya é uma descoberta emocionante», disse um dos autores do trabalho, o antropólogo Rolf Quam, da Universidade de Binghamton, nos Estados Unidos. E explicou: «Ela fornece a prova mais clara que temos até hoje de que os nossos antepassados primeiro migraram para fora de África muitos antes do que pensávamos.»

Isso significa também que o Homo sapiens, a única espécie de hominídeo que não se extinguiu, entre todas as que calcorrearam os caminhos da Terra, dispôs de um intervalo de tempo muito maior do que se supunha para interagir com os grupos humanos mais arcaicos, como os Neandertais, por exemplo, «com tudo o que isso implicou de trocas culturais e biológicas», como lembram os cientistas. Eles não têm dúvidas: «Esta descoberta muda a nossa visão acerca da disseminação dos humanos modernos, que se dispersaram [a partir de África], há cerca de 220 mil anos.»

Por: Maria Filomena Silva

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