Muito frio
«Por cá tudo óptimo, mas tem estado um taró medonho», escreveu alguém, que um dia poderão saber quem foi. Já não me lembrava da palavra, até porque nunca a usei nem a vejo ser usada por ninguém. E, no entanto, eu devia lembrar-me, pois já a lera em Aquilino («estava um taró de rachar»); em Torga («taró de repassar fragas»); João de Araújo Correia («Outras vezes, como quem varia, dizem: está um taró…»). Adivinharam: é um vento frio, agreste. Parece vir da língua dos ciganos. Também se escreve «tarol». Assim, temos taro, taró e tarô. Interessante.
A etimologia também ajudava
Matemática 3, de Angelina Rodrigues e Luísa Azevedo, editado pela Areal Editores, é um manual para o 3.o ano. Mas não é um livro qualquer, tem revisão científica de Berta Alves. O que me parece é que faltou a revisão não científica na parte dos numerais ordinais, porque 80.o por extenso é octogésimo e não — como escrevem na página 15 — octagésimo. Um bom católico lembrar-se-ia logo da carta apostólica Octogesima Adveniens, do Papa Paulo VI.
Dizer, celebrar, dar
«O papa deu missa na Catedral dos Santos Pedro e Paulo, onde falou do que deve ser o papel da Igreja» (Márcia Rodrigues, Telejornal, RTP1, 26.09.2015). Logo ao meu lado se comentou que não se usa o verbo dar nesta locução, mas sim «dizer» ou «celebrar». Não é assim. É pouco usado, em especial na escrita, mas usa-se e está certo «Quando apareceu de manhã para dar missa, ninguém pareceu pensar, O Irmão Reconciliado está mais baixo. Ninguém tropeçou nele ao longo do dia. Ninguém lhe faltou ao respeito. Olharam um bocadinho mais para baixo quando falavam, mas nada que se notasse na voz» (O Conto da Gazela, Catarina Fonseca. Lisboa: Editorial Caminho, 2003, p. 82).
Formigas aladas
É sempre assim por esta altura do ano, depois das primeiras chuvas: nas paredes do prédio, largas centenas de formigas de asas — as aúdes ou agudes (agúdeas ou agúdias). A minha filha, que até de cobras e lagartixas gosta, ficou muito interessada. Disse-lhe que os passarinheiros as usam como isco e os índios brasileiros (Macuxis, Wapischanas, Taurepangues, Ingaricós, Patamonas, Iecuanas, Ianomâmis? (não me perguntem quais) as comem torradas. (E não se diz que o futuro da humanidade está na entomofagia, a alimentação que consta sobretudo de insetos?) Mais pequenas que estas são os agudeões (ou agudiões). Alguns destes vocábulos nem sequer estão nos dicionários.




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