O valor do martírio

Abril 2015 / Valores de sempre

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O martírio é um tema que tem despertado a minha curiosidade e confusão nesses últimos tempos em que assistimos a atos terroristas de fundamentalistas que se imolam para provocarem terror, sofrimento e morte e que afirmam querer morrer como mártires.

Morrem para que outros também morram: vejam-se os acontecimentos recentes de Paris, Nigéria, Síria, Iraque… Isso não é martírio, mas sim terrorismo e fanatismo puros. Porque considero que o martírio é um valor que precisa de ser bem entendido e que nada tem que ver com esses recentes atos terroristas de suicidas bombistas, decidi refletir convosco sobre o valor do martírio na tradição cristã.

Martírio é testemunho

A palavra «martírio» vem do grego martyria, cujo significado é «testemunho». No sentido mais cristão ou teológico, «martírio» é o facto de morrer para dar testemunho de Cristo: por seu sofrimento e por sua morte, a testemunha manifesta a verdade do testemunho que presta a Cristo e ao Evangelho.

Na Igreja antiga, sujeitar-se ao martírio era dar testemunho público de Jesus Cristo com o derramamento do sangue. Era seguir a Cristo na radicalidade. Nos períodos de perseguição, os cristãos eram colocados diante de uma escolha radical: ou negar a fé, ou perder a vida. Os mártires não tinham dúvida: nenhum bem desta terra, nenhuma riqueza, nem mesmo a própria vida, valiam mais do que a fé. Cantavam e louvavam a Deus enquanto eram acusados de «traidores», «criminosos», «antissociais», «obstinados», «inimigos de Roma» e «ateus» e atirados às feras, crucificados e queimados vivos.

Os mártires da história da Igreja tinham muito claro para si que não importava o quanto sofreriam desde que a fé que professavam fosse conhecida. A morte em si não era o mais importante no martírio deles, mas as razões que os conduziram a isso. As palavras de Jesus: «Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mt 5, 11-12) ecoaram na mente de muitos mártires.

O crescimento significativo da Igreja nos primeiros séculos deve-se, em grande parte, à coragem dos seus mártires. Os mártires eram o orgulho da fé cristã, sendo também um fator determinante para o crescimento do movimento cristão nos primeiros séculos. A primitiva comunidade cristã via nos mártires um estímulo à perseverança e novos intercessores junto com Cristo. A Igreja nasceu e germinou marcada pelo derramamento do sangue inocente, daqueles que não tiveram medo de dar a vida pela causa da sua fé e do testemunho de Jesus Cristo. Tanto é verdade que Tertuliano cunhou nesta época a sua célebre frase: «O sangue dos mártires é a semente da Igreja.»

Martírio branco

O martírio vermelho dá-se com o derramamento de sangue em nome da fé. No entanto, a tradição da Igreja também reconhece o martírio branco, que se dá quando alguém abandona tudo em nome de Cristo porque ama a Deus. É um martírio que não implica diretamente a morte, mas a mortificação. São fiéis que deixam família, bens, riquezas, confortos para dedicar a sua vida a Deus; são cristãos que, dia a dia, suam para educar na fé, enfrentando preconceitos, discriminações e represálias, nas mais variadas partes do mundo onde ser cristão é incómodo e perigoso. São pessoas, mártires, que entendem que a vida é gratuidade de Deus e sendo gratuidade, vivem-na como tal. A adesão ao Evangelho, à pessoa de Jesus Cristo, coloca-nos também diante de uma escolha radical: concordar com as estruturas e valores da sociedade, que muitas vezes são antievangélicas, e viver num estado de bem-estar, ou então optar pelo Evangelho e, assim, opor-se a tudo o que lhe seja contrário. Isso leva, na maioria das vezes e em muitos países, a um ostracismo social, ou a um martírio branco.

Mártires, precisam-se

O Cristianismo, portanto, considera os mártires de ontem e de hoje testemunhas fiéis de Jesus Cristo.

O século xxi necessita de mártires, no sentido etimológico da palavra, isto é, testemunhas de Jesus Cristo Ressuscitado, o Filho de Deus que encarnou para fazer uma única revolução: a revolução da cruz e do amor. Este foi o apelo do Papa Francisco aos jovens, na recente visita à Turquia: «Com a força do Evangelho e o exemplo dos mártires, sabei dizer não à idolatria do dinheiro, não à falsa liberdade individualista, não às dependências e à violência; e, pelo contrário, sabei dizer sim à cultura do encontro e da solidariedade, sim à beleza inseparável do bem e da verdade; sim à vida gasta com ânimo grande, mas fiel nas pequenas coisas. Deste modo, construireis um mundo melhor.»

 

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Por: Abel Dias

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