O valor da mansidão

Fevereiro 2014 / Valores de sempre

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Durante a preparação para o sacramento do crisma, que recentemente realizei numa paróquia da diocese de Viseu, um jovem interrogou-me sobre o valor e o significado da mansidão e pedia-me para explicar a frase de Mateus. Dizia ele que vemos tantas guerras por um pedacinho de terra, enquanto Jesus afirmou que somente os mansos herdarão a terra. Disse-lhe que talvez Jesus nos queira dizer que, no Reino de Deus, as regras são diferentes das deste mundo, que não é pela força nem pela violência que tomaremos posse daquilo que nos pertence, mas sim pela mansidão da fé em Deus. Disse-lhe que a mansidão é, acima de tudo, um fruto do Espírito Santo que parece perdido na nossa cultura extremamente agressiva e egocêntrica, mas extremamente necessário para um mundo mais justo.

Como nasceu a palavra mansidão

A palavra «mansidão» vem do latim mansuetudo que, literalmente, quer dizer «acostumado à mão», referindo-se aos animais domesticados acostumados ao contacto humano. A etimologia, à primeira vista, parece não ajudar a compreender o valor da mansidão, visto não nos estarmos a ver como animais domesticados. Mas, se pensarmos melhor, veremos que não se trata de um animal fraco. Pelo contrário! A questão é que a sua força foi contida e direcionada. A mansidão é uma força submetida a uma autoridade apropriada. Em grego, a palavra mansidão é πραυτης (prautes), que significa «gentileza», «brandura», «humildade». Podemos dizer, então, que mansidão é um estado de espírito de alguém que tem controlo e domínio sobre o seu temperamento e atitudes.

A força da mansidão

Atualmente, a mansidão não é um valor muito apreciado. A palavra contém uma ideia de falta de dinâmica e de ânimo, ou falta de força e virilidade. Embora fraqueza e mansidão possam parecer semelhantes, não são a mesma coisa. A fraqueza deve-se a circunstâncias negativas, como a falta de força ou a falta de coragem. Mansidão, pelo contrário, é o resultado de uma decisão consciente para confiar em Deus e se apoiar Nele. A mansidão origina-se na força e não na fraqueza. Uma pessoa mansa é serena, ponderada, prudente e equilibrada; é o contrário de uma pessoa agressiva, ou brava. Mansidão é saber lidar com o inevitável e construir, com paciência e determinação, uma ponte entre a guerra e a paz.

Fruto do Espírito

A mansidão, assim como o amor, a alegria, a paz, a paciência, a amabilidade, a bondade, a fidelidade, o domínio próprio são frutos do Espírito Santo. A mansidão é, essencialmente, humildade para com Deus e gentileza para com as pessoas. Mansidão é resultado de uma opção pessoal de confiar na força e poder de Deus – o Espírito Santo – em vez de pressionar para que as coisas aconteçam ao nosso modo. Ser manso é ser como Jesus: «Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). O manso é alguém que espera e confia no Senhor, é alguém que não se entrega à ira, nem à cólera, é alguém que procura a paz e o bem, e, por isso, será co-herdeiro em Cristo do reino dos céus.

Modelos de mansidão

A Bíblia apresenta-nos vários modelos de mansidão. Abraão abriu mão dos seus direitos e deu a Lot a oportunidade de escolher primeiro (Gn 13:8,9). Uma pessoa mansa abre mão, não briga pelos seus próprios direitos. José, que tinha sido vendido como escravo pelos próprios irmãos, usou de mansidão quando eles o procuraram, agora como governante do Egito, para comprar comida (Gn 45). Ainda jovem, David foi ungido para ser rei de Israel. O rei Saul ficou loucamente ciumento e, por anos, procurou David com a intenção de o matar. Em duas ocasiões, David teve a oportunidade de matar Saul, mas a mansidão de David não o permitiu fazer. Moisés é descrito como o homem mais manso do seu tempo (Nm 12, 3), apesar das inúmeras injúrias que sofreu do seu próprio povo. Em vez de se irar e revoltar contra o povo, Moisés caía de joelhos em oração pelo povo. Mas é em Jesus de Nazaré que encontramos o maior modelo de mansidão. Os Evangelhos são, do início ao fim, a demonstração da sua mansidão. A prova máxima da mansidão de Cristo é dada no momento da sua paixão.

A visão cristã da mansidão

Mansidão, à luz da perspetiva de Jesus, é a virtude através da qual aprendemos a entregar a Deus todos os nossos direitos e a confiarmos que Ele nos conduzirá à vitória. Isto não implica uma passividade diante da vida, mas, sim, uma nova visão da vida, marcada pela não violência, pelo respeito pelas pessoas, pela não agressividade e pela não satisfação em vencer à custa da derrota e do aniquilamento dos outros. Aos mansos, Jesus chamou de bem-aventurados porque herdarão a terra. Se Deus dá tanto valor aos mansos, sejamos perseverantes em cultivar esse valor tão precioso aos Seus olhos, neste mundo conturbado e violento, onde a mansidão é tão maltratada e desprezada.

Descarrega aqui a Ficha de trabalho sobre a Mansidão

 

Por: Abel Dias

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