O Natal interior

Dezembro 2015 / Tela Encantada

Na época natalícia, há quem se empenhe arduamente em tornar-se uma pessoa melhor, ao menos, durante quinze dias. O contexto propicia essa mudança, pois abundam as campanhas de solidariedade, as reportagens que contrastam a pobreza e a riqueza ou que retratam as crianças desprovidas de presentes. Tudo isto sensibiliza o coração, enternece o espírito e, acima de tudo, carrega a consciência. De modo que o distraído cidadão, que, durante o ano, anda metido consigo e com o seu umbigo, converte-se, transitoriamente, num altruísta.

Os moralistas dirão que este comportamento é hipócrita, superficial, inútil, inconsequente. Dirão tudo isto, sentados no seu descanso desinteressado, analisando eloquentemente o mundo e os outros, como se conhecessem a medida da virtude e do defeito, como se essas matérias fossem claras. E são-no, mas como o petróleo.

Nenhum problema está em ser-se indiferente durante todo o ano e benemérito no período de Natal: o bem, mesmo que de origens menos evidentes, por pouco que seja, aproveita-se sempre. Era o que faltava que, andando todos apregoando a virtude da solidariedade, logo nos deitássemos a desconsiderá-la por advir de alguém que a não manterá por muito tempo. Acresce que nem devemos precipitar-nos nos rótulos: por tonto devemos haver aquele que só espera o bem de quem é habitualmente bom; e que só espera o mal de quem é habitualmente mau.

Talvez tenhamos de nos tornar menos destrutivos e mais construtivos. Em vez de apontarmos o dedo, será certamente mais produtivo convidar aquele que experimenta a alegria de ajudar a manter essa atitude, mesmo depois de 25 de dezembro. Então, já não nos dirigiremos a ele para o criticar pelo seu passado, mas para lhe recordarmos da existência de um futuro possível. E talvez se dê, então, um momento de viragem que perdura no tempo, na nossa vida.

A Christmas Carol

Vêm estas considerações a respeito de um bonito filme, animado pela Disney, que recebeu o título da obra do escritor inglês que o inspira: A Christmas Carol (a versão portuguesa recebeu o título «Um conto de Natal»). Baseado num livro de Charles Dickens, o filme conta a história de um homem avarento que, na véspera de Natal, recebe a visita de três espíritos: o do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro. Os dois primeiros chamam a sua atenção para factos que avivam a sua consciência para o erro em que a sua personalidade persiste. O terceiro mostra-lhe as consequências prováveis dessa atitude. Esta experiência espiritual tornará Mr. Scrooge uma pessoa diferente, para melhor.

O ser humano goza de uma enorme aptidão para se transformar. Este quase inacreditável talento advém certamente da nossa não menos espantosa capacidade para realizarmos introspeção. Tal como Scrooge, cada qual tem a possibilidade de se tornar objeto do seu espírito e, não gostando do que sente, operar a transformação perene que se exige. Talvez seja este o significado último do Natal: um convite à mudança, ao renascimento; um Natal interior.

 

Assiste ao filme A Christmas Carol

 

Por: João Martins

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