O inventor do «espanta-leões»

Março 2014 / Ciência

Com pedaços de lixo e muito engenho, Richard Turere mudou a vida da sua comunidade.

 Quando tinha 6 anos, Richard Turere, um rapazinho do Quénia que vivia com a família numa comunidade às portas do Parque Nacional de Nairobi, teve de confrontar-se com um problema. O pai encarregou-o de velar pela segurança das vacas, e isso significava que ele tinha de garantir que os animais ficavam a salvo dos predadores. Sobretudo dos leões, que viviam paredes-meias com a sua comunidade masai.

A missão era difícil. À noite os leões rondavam o cercado do gado, à espreita de uma oportunidade, e uma vez o pior acabou por acontecer. Uma manhã, quando ele se levantou bem cedo para soltar o gado, deparou-se com um cenário que o deixou de rastos: os leões tinham atacado e esventrado o touro da manada. «Senti-me muito mal», conta ele, hoje. «Era o nosso único touro.»

Dar caça aos leões, no entanto, não era uma opção. Apesar dos ataques ao gado, o número daqueles felinos selvagens está a diminuir no Parque Nacional de Nairobi – e em toda a África. Continuar a matar os leões ditaria o seu fim. Richard pensou que o único caminho era afugentar os leões, e conseguir mantê-los lá bem longe.

«Experimentei usar tochas na vedação, mas não resultou. Pelo contrário, eles até viam melhor as vacas», lembra. Tentou, então, a tática do espantalho, que foi um êxito à primeira. «Mas quando eles voltaram nas noites seguintes viram que a figura não se mexia e decidiram atrever-se mais perto.» Também não servia.

Richard pôs-se então a caminhar, uma noite, com uma tocha em volta da vedação e, para sua surpresa, os leões não se aproximaram. Compreendeu nesse momento que aquilo que os animais temiam não era o fogo em si, mas a luz em movimento. E foi assim que teve uma ideia verdadeiramente luminosa: a de colocar ao longo da vedação uma série de luzes a piscar, a um ritmo capaz de simular movimento, como se alguém andasse ali a correr com uma tocha na mão. Só faltavam os materiais para pôr o plano em prática mas, procurando no lixo, encontrou tudo o que precisava: uma velha bateria de um carro, os restos de uma caixa indicadora de motociclo para as luzes de pisca-pisca, um interruptor desirmanado e sem préstimo, lâmpadas de lanternas esventradas e um pequeno painel solar. Depois ligou tudo com fios elétricos… e fez-se luz.

Aquilo funcionava. «Os leões julgavam que era eu que andava ali e não se aproximavam, e eu estava na cama a dormir», diz, a sorrir, Richard Turere, que desde há três anos, depois de ter instalado a sua invenção no estábulo da família, já não se preocupa com os leões.

 Sonhando com novas invenções

Espantar os leões do seu cercado já seria um final feliz para Richard Turere, mas a história não acaba aqui. Quando os vizinhos ouviram falar do seu engenhoso «espanta-leões», perguntaram-lhe se podia instalar um igual nas suas vedações, e ele disse que sim. A um, a outro, e a mais outro… Hoje, a sua invenção, que é tão brilhante como barata, é utilizada um pouco por todo o Quénia, para manter ao largo, não apenas os leões, mas também os leopardos ou as hienas. E Richard, agora com 14 anos, ganhou uma bolsa e estuda numa das melhores escolas do seu país, enquanto vai sonhando com novas invenções.

Por: Maria Filomena Silva

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