O gerador que usa… urina

Novembro 2015 / Ciência

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Eniola conseguiu desencantar uma velha bateria de um carro, Toyn e Abiola arranjaram os filtros e os tubos e Adebola encontrou uma pequena botija vazia e, com estes parcos materiais, uma boa dose de improviso e muito engenho – e, vá lá, também os bons conselhos do professor de Ciências do liceu – as quatro jovens de Lagos, na Nigéria, que na altura tinham 14 anos, exceto Eniola que tinha 15, lançaram-se a criar um gerador para produzir eletricidade. O combustível? Bem o combustível que elas elegeram foi o hidrogénio, que decidiram extrair da urina. Sim, leram bem: urina.

Pensar, conversar e… descoberta

Num país africano como a Nigéria, onde as falhas de energia são muito frequentes, muitas famílias têm sempre um pequeno gerador à mão, mas o gasóleo ou o petróleo são caros e muitos não têm capacidade para suportar essa despesa. Por outro lado, a queima de petróleo e seus derivados tem um custo ambiental elevado, por causa das emissões de gases com efeito de estufa, que passou a ser necessário ter em conta – por causa das alterações climáticas, lembram-se? O hidrogénio, por outro lado, é uma energia limpa, como dizem os especialistas, e foi isso mesmo que as quatro jovens pensaram quando a ideia lhes ocorreu.

«Estávamos as quatro a conversar sobre o assunto e de repente lembrámo-nos de que os foguetões usam hidrogénio. Então pensámos que usando água poderíamos obter hidrogénio», contam elas num testemunho que escreveram para o sítio da UNICEF.

Só que, extraindo o hidrogénio da água, usando uma corrente elétrica para provocar a separação dos seus componentes químicos (o hidrogénio e o oxigénio) as jovens “cientistas” nigerianas não conseguiram obter mais do que o hidrogénio suficiente para fazer trabalhar uma pilha fraquinha de 1,25 volts. Não compensava. Por outro lado, a água é demasiado preciosa, sobretudo num continente como África. Então, uma delas, Adebola, sugeriu que usassem matéria-prima que não tivesse nenhuns custos e, de ideia em ideia lembraram-se da urina, que tem duas grandes vantagens: é grátis… e inesgotável.

No fim, Eniola Du Bello, Oluwatoyin Faleke, Abiola Akindele  e Adebola Duro-Aina, são estes os seus nomes completos, conseguiram o que pretendiam. Criaram um gerador barato que usa combustível barato e que em traços largos funciona assim: os componentes da urina são separados pelo tal processo que usa uma pequena corrente elétrica e o hidrogénio assim obtido é filtrado e armazenado numa botija de gás, e depois usado no gerador. Com apenas um litro de urina, a máquina pode trabalhar durante seis horas a produzir eletricidade. E, por tudo isto, não surpreende que a engenhoca tenha sido, em 2012, uma das estrelas da Maker Faire Africa, que é anualmente uma montra de inventos deste género, feitos com materiais acessíveis e baratos e capazes de melhorar a vida das pessoas que vivem em países pobres.

Depois de apresentarem o seu gerador na feira, as quatro raparigas já foram convidadas para o exibir noutras mostras de tecnologia. E o Governo da Nigéria, contam elas no testemunho, já se pôs a estudar uma forma de produzir aqueles geradores de baixo custo.

Por: Maria Filomena Silva

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