Acreditar em Deus é confiar Nele, mas nós temos substituído a confiança em Deus pela confiança no dinheiro.
O filósofo italiano Giorgio Agamben afirmou: «Deus não morreu, Ele tornou-se dinheiro e os bancos tomaram o lugar das igrejas e manipulam e geram a fé. É no dinheiro que as pessoas depositam a sua esperança. É a ele que aspiram. É nele que acreditam que está a felicidade, a saúde, a prosperidade e a beleza.»
O capitalismo como religião
O filósofo Agamben édiscípulo deWalter Benjamin, filósofo alemão e judeu, que, no século passado, escreveu um artigo intitulado «Capitalismo como religião». Para ele, o capitalismo é uma religião apenas de culto: sem dogmas nem moral. Esse culto é realizado mediante o consumo contínuo, no qual todos os dias são de preceito, cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.
Agamben faz-nos notar que não apenas as estruturas institucionais são geridas ideologicamente pelo dinheiro, mas também nós, nas decisões do dia a dia, temos a crença férrea e uma devoção inquebrável no dinheiro. Quantos valores, sonhos e projetos pessoais e familiares são sacrificados e relegados para segundo, ou mesmo último lugar, só para satisfazer religiosamente a ânsia de ter mais e mais dinheiro?
A crise e o dinheiro
Crise e dinheiro são das palavras mais usadas nos dias de hoje. Muitas vezes não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. Crise hoje em dia significa simplesmente «devemos obedecer!».
A chamada «crise» jádurahá demasiado tempo, e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo selvagem. Pior ainda é que se apregoa que a solução para sairmos dessa crise passa necessariamente e exclusivamente pelo dinheiro.
Um Deus chamado dinheiro
Não pensemos que esta problemática com o deus dinheiro é só dos nossos tempos. Já na antiga Grécia, uma comédia de Aristófanes, chamada Pluto ou Um deus chamado dinheiro, ironiza sobre a maneira injusta como a riqueza é distribuída entre os homens. Crémilo, ateniense íntegro, vê o dinheiro concentrado nas mãos dos corruptos, enquanto os honestos se tornam cada vez mais pobres. Indignado, dirige-se ao oráculo de Apolo, para saber se, para obter êxito na vida, convém que o filho permaneça bom e justo ou deve moldar-lhe o caráter para injusto. O oráculo, em resposta, ordena-lhe que siga a primeira pessoa que encontrar ao sair do templo. Assim, Crémilo vai atrás de um cego que cruza o seu caminho e, para sua surpresa, descobre que o cego é Pluto, o deus do dinheiro. Leva-o para casa e cura a sua cegueira. Moral da história: num momento histórico de decadência da sociedade grega, o filósofo alertava para o risco de se descuidar o caráter para se dedicar exclusivamente ao dinheiro.
A idolatria do dinheiro
O Papa Francisco tem atacado a economia global por venerar o deus dinheiro: «O mundo passou a idolatrar esse deus chamado dinheiro[…] Mas, como cristãos, não podemos querer esse sistema económico globalizado que nos faz tão mal. Os homens e mulheres têm de estar no centro (de um sistema económico) como Deus quer, não o dinheiro.»
No Brasil, por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude, o papa advertiu: «ter dinheiro pode oferecer um momento de embriaguez, a ilusão de serem felizes, mas no final, acaba por nos dominar e levar-nos a querer ter cada vez mais e nunca estarmos satisfeitos».
Não se pode servir a Deus e ao dinheiro
O Papa Francisco lembra que alguns que «são católicos e até vão à missa, porque assim têm mais estatuto, mas depois […] fazem as suas negociatas vivendo numa cultura do dinheiro. […] Escolhem a via do dinheiro e essa sedução leva à corrupção. Jesus foi claro em relação a este assunto: nãose pode servir a Deus e ao dinheiro».
Ninguém se salva com o dinheiro – diz o Santo Padre. A ambição desmedida, ligada ao ter e não ao ser, torna-se pecado que destrói o próprio e todos aqueles que estão à volta. A ganância descontrolada conduz à corrupção, ao tráfico de influências, abuso de poder, prepotência, chantagem, cria assassinos, guerras, violências, desagrega famílias, fomenta invejas e discórdias. Quando se põe o dinheiro em primeiro lugar, rapidamente o coração se esvazia. Excessiva preocupação pelo trabalho, pelo dinheiro, é sinónimo de falta de tempo e espaço para Deus, para a família, para o descanso, para cuidar da saúde, para a festa, para o lazer, para estar com os amigos, para brincar com os filhos, falta disposição para amar a esposa… e o dinheiro é sempre insuficiente.
Só Deus é o tesouro da nossa vida. Deus em primeiro lugar para que o nosso semelhante seja prioridade. Como diz D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa: «Onde Deus é tudo há lugar para tudo e espaço para todos.»
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