O Bom samaritano

Outubro 2017 / Parábolas da vida

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Uma boa forma de inaugurar estas Parábolas da Vida é dar-te a conhecer como nós, os seus autores, nos conhecemos. Daqui em diante, procuraremos chamar a tua atenção para pormenores extraordinários da vida.

 

Conheces a parábola do Bom Samaritano? É uma das mais tocantes histórias da Bíblia. Lucas relata que certo homem caiu nas mãos de um salteador. Ferido e maltratado, ficou estendido na beira do caminho. Passou um sacerdote. Passou também um judeu da tribo dos Levitas. O sacerdote e o judeu passaram e mudaram para o outro lado do caminho. Entretanto, passou um samaritano, que não voltou as costas. Pegou no homem, tratou as feridas, montou-o no seu burrito e seguiu até encontrar uma estalagem. Entrou e pediu ao estalajadeiro para cuidar bem daquele homem, tendo-lhe entregado algumas moedas para o compensar pelo esforço.

 

«João, foi um amigo beirão»

Eu, Miguel (na foto), não levei nenhuma sova. Mas até poderia parecer que sim, olhando ao estado em que fiquei depois de um acidente, no longínquo ano de 1998. Fiquei tetraplégico, ou seja, com limitações para fazer movimentos coordenados do pescoço para baixo. No meu caminho também passaram sacerdotes e levitas; alguns passaram também para o outro lado. Tal como pregou Frei Tomás, «faz o que ele diz, não faças o que ele faz». Graças a Deus, nem todos procedem deste modo.

Verdadeiramente distinto de Frei Tomás, entrou um dia em minha casa, absolutamente descontraído, o fraterno João Martins. Fê-lo do modo como se entra numa tradicional casa da Beira: batemos à porta; ouvimos «Entrem!»; e só depois de estarmos dentro de casa escutamos «Quem é?».

João sentou-se no sofá ao lado da cadeira de rodas onde eu estava sentado. A conversa foi correndo naturalmente:

– Tudo em ordem?

– Tudo ótimo. E tu, estás bem? Tomamos um café?

Para me poder escutar melhor, perguntou:

– Posso baixar o som da televisão?

Recordei então o sábio pensamento beirão «pelo o pouco se vê o muito».

 

«Miguel, tetraplégico faz girar a vida»

Eu, João, vi no Miguel uma fonte inesgotável de energia e de vida. Apesar de todos os limites, lutou para chegar onde já poucos o esperavam. Poderia pensar-se que olhando para o Miguel os nossos problemas se tornam pequenos. Mas não é assim. Olhando para o Miguel, ganhamos coragem e interesse em ultrapassar os obstáculos, grandes ou pequenos, que a vida nos atravessa à frente. Aliás, se o entusiasmo falha, lá estará o Miguel erguendo-nos, dando-nos a sua mão forte e persistente. Vale a pena recordar uma frase que já lhe ouvi muitas vezes e que demonstra o seu caráter: «Habituei-me a ouvir dizer que o mundo dá muitas voltas, então pensei em certa altura que a melhor coisa que se podia fazer era tentar aprender a girar.»

Tomaríamos muitos mais cafés. Demos forma e sentido à palavra «amigo». Ser amigo é, pois, não permitires que eu fique na berma do caminho. Compreendemos, agora, melhor as moedas entregues ao estalajadeiro. Terminamos citando Cora Coralina: «Se podemos aprender com os golpes duros da vida, podemos aprender com os toques suaves da alma.»

Por: Miguel Pinto Monteiro

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