Natal em família

Dezembro 2015 / Mala da Alice

E se, neste mês de dezembro, em que toda a gente enche a boca com a palavra «família», tentássemos fazer coisas diferentes?

 

A única vez que me lembro de me ter zangado mesmo a sério com amigos foi há quinze anos quando, depois de me convidarem para passar o fim do ano com eles, ligaram a televisão e estiveram o tempo todo de olhos cravados no ecrã para ver se, num determinado concurso muito popular, que terminava nesse último dia de dezembro, o vencedor iria ser quem eles queriam que fosse.

Mal sabia eu que, muitos anos depois, com iPhones e iPads e smartphones e o mais que por aí cada dia se inventa, o panorama ainda iria estar muito pior.

As reuniões de amigos são reuniões para se tirarem selfies, para mandar para o Instagram, ainda estamos a acabar uma frase e já ela está escarrapachada no Facebook – e a televisão continuamente ligada.

E depois os adultos queixam-se de que as crianças estão violentas e agressivas, de que as crianças não leem, que só estão agarrados aos tablets e aos jogos – sem perceberem que tudo passa por eles, que fazem exatamente o mesmo.

E se, neste mês de dezembro, em que toda a gente enche a boca com a palavra «família», tentássemos fazer coisas diferentes? Acreditem: o mundo já existia antes de vocês todos terem telemóveis. Custa a acreditar, mas é verdade.

Os pais podiam, por exemplo, instituir a «Semana da Brincadeira» (No Brasil celebram a Semana do Brincar em maio, mas para brincar todos os meses são bons.) Uma semana em que as aparelhagens descansassem e fossem substituídas por, sei lá, idas ao Jardim Zoológico, ou a um museu, ou a um castelo, ou a outro qualquer monumento histórico. Quantas vezes vivemos a nossa vida toda em lugares que não conhecemos, ou conhecemos mal, ou donde conhecemos apenas a nossa rua e a rua da escola. Lembro-me de, há anos, ter ido a uma escola na Batalha, com miúdos a dizerem-me que nunca tinham entrado no Mosteiro.

Pensem lá bem: conhecem mesmo o sítio onde vivem?

Mas há outras ideias capazes de substituírem por uns dias as televisões permanentemente ligadas e aos berros. Um livro, por exemplo. Desliguem a televisão e leiam um livro. Ou leiam histórias aos mais novos da vossa casa. Ou inventem peças de teatro.

Estamos num tempo muito propício a tudo isso. Aproveitem a véspera de Natal, por exemplo, e antes de todos se sentarem à mesa, apresentem-lhes um pequeno teatro. Lembro-me do que me divertia quando os meus netos eram pequenos e representavam sempre uma peça, escrita por eles, na véspera de Natal (e até cobravam entradas… coisa pouca, está claro, mas sempre era a recompensa do esforço e, como a mais velha desde muito pequena repetia: «Todo o trabalho tem de ser pago.» Pode não ser muito natalício, mas não deixa de ser muito verdadeiro…)

Eu sei que, nestas coisas, às vezes o difícil é convencer os pais… Convencê-los a desligar o telemóvel, a desligar o computador, a desligar a televisão. Convencê-los a pegar num livro. Há quanto tempo é que os vossos pais não leem um livro? O trabalho, claro, sempre o trabalho, e as horas que se gastam nos transportes, e o trânsito, e a chuva, e a criseNão, ninguém tem uma vida fácil.

Mas, pelo menos neste tempo em que toda agente apregoa que temos de pensar nos outros, que temos de ser solidários, que é preciso banir o consumismo desenfreado – que tal se começássemos a praticar tudo isso em nossa casa?

Vá, fechem lá a televisão e peguem num livro. Não custa nada. E garanto que no fim se sentem todos muito melhor.

Bom Natal!

Por: Alice Vieira

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