Misericórdia: enterrar os mortos

Julho-Agosto 2016 / Valores de sempre

 

Num ambiente tradicionalmente cristão, a morte de alguém é suficientemente divulgada e o acompanhamento do defunto acontece com naturalidade. Acompanhar as famílias em momentos tão dolorosos e difíceis é uma obra de misericórdia, um momento para confortar na fé e na amizade.

Nas paróquias há sempre familiares, amigos e outras pessoas que estão presentes e raros são os funerais sem cerimónia religiosa. Pode, no entanto, acontecer, em ambientes mais urbanos e menos cristianizados, onde o anonimato facilmente se instala, que alguns defuntos não sejam acompanhados e honrados. O individualismo, a indiferença e o isolamento dos dias de hoje tendem a esconder a morte e todos os rituais a ela associados, a censurar o luto e a delegar noutros as práticas e os ritos de despedida.

 

Uma questão de humanidade

A consciência da morte existe desde a origem da humanidade e as pessoas desenvolveram a prática da sepultura dos mortos. Os ritos de inumação (sepultura debaixo da terra) são os mais antigos que a arqueologia nos permite encontrar.

A sepultura dos mortos revela o grau de civilização de uma sociedade. «Julga-se um povo pelo modo como sepulta os mortos», dizia Péricles, político e orador grego, pois, quando não há respeito pelos mortos, também não se espera que o haja pelos vivos.

Curiosamente, o pensamento humano relacionou homo (homem) com humus (terra) e a imagem bíblica da criação do homem a partir da terra fizeram da inumação a forma de sepultura privilegiada no Ocidente, embora, atualmente, também se aceite a cremação. Na tradição bíblica, a sepultura foi sempre tida na máxima consideração, a par dos cuidados a prestar ao cadáver (lavar o defunto, pentear, vestir, etc.). Como nos diz o Catecismo da Igreja Católica, «os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição».

 

Presença em vez de flores

O ato de sepultar os mortos revela o respeito por quem chega ao fim da sua caminhada terrena, pela sua memória, pela sua herança. Trata-se de um último gesto para com o corpo humano, o mesmo que, em virtude da sua fragilidade, precisou de ser cuidado desde o seu nascimento. Por outro lado, sepultar é assumir a separação, já que o corpo do defunto não nos pertence.

Na celebração das exéquias, a Igreja encomenda a Deus os mortos, reanima a esperança dos fiéis e dá testemunho da fé na futura ressurreição com Cristo. Por isso, sepultar os mortos é uma obra de misericórdia para com um irmão que chegou ao fim da sua peregrinação, é um ato de louvor ao Criador e Senhor da vida, é uma oportunidade para se ver confrontado com a sua própria fragilidade, mas é também uma manifestação de fé e de esperança na vida que continua.

Por outro lado, não se pode esquecer o acompanhamento e apoio devidos aos que choram, aos que ficam mais sós e desamparados. Porque não é fácil gerir um desaparecimento. A proximidade expressa comunhão e manifesta solidariedade nestas horas difíceis.

As flores que se podem enviar não substituem nunca uma presença amiga e reconfortante junto de quem chora e sofre, por mais discreta que seja, num momento de dor e sofrimento como é a morte de um ente querido. E a oração de sufrágio continuará a ser a mais bela e oportuna homenagem a quem parte, mesmo se marcada pelo silêncio.

 

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Por: Abel Dias

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