Misericórdia é visitar os presos

Junho 2016 / Valores de sempre

 

«Quando me visitam pessoas que não me conhecem e não têm qualquer ligação comigo, sinto-me pequeno e pergunto-me que força é essa que torna as pessoas capazes destes gestos» (Zacarias, recluso)

 

Visitar aqueles que estão privados da sua liberdade e sedentos de uma palavra de esperança é uma obra de misericórdia. É afirmar e valorizar a esperança cristã, a esperança de que um novo recomeço é possível.

O Papa Francisco, nas inúmeras visitas que tem feito a reclusos, não só tem tido palavras de alento como tem convidado os reclusos a aproveitarem o tempo de reclusão para abrirem as suas vidas a Deus. Numa cadeia da Bolívia, afirmou que «quando Jesus entra na vida de alguém, essa pessoa não fica detida no seu passado, antes começa a olhar o presente de outra maneira, com outra esperança. A pessoa começa a olhar-se com outros olhos a si própria, a sua própria realidade. Não fica presa ao que sucedeu, pelo contrário, é capaz de chorar e de encontrar aí a força para voltar a começar. […] Não existe lugar onde a misericórdia divina não chegue e nem há quem não possa ser por ela tocado». A nossa visita aos reclusos é, acima de tudo, facilitar o encontro e o toque com Jesus.

 

A perda da liberdade

A condenação de uma pessoa à prisão e, consequentemente, à perda de liberdade, é o resultado do julgamento que a sociedade faz de quem cometeu um delito. E visa afastá-la do convívio social para proteger a sociedade de novos crimes e dar oportunidade à pessoa condenada de corrigir-se. Acontece que, ao perder a liberdade, muitas vezes, o preso perde também a sua dignidade e o sentido de vida. Muitas prisões constituem um dos piores lugares em que o ser humano pode viver. A prometida reeducação não acontece e o que ocorre é exatamente o contrário. As pessoas saem “instruídas” para novos delitos, o que nos deve fazer refletir como é que estamos a reeducar e a reintegrar estas pessoas.

Visitar os presos, ou ajudá-los na sua reinserção social, é servir os que foram afastados da sociedade. Há que levar a essas pessoas a nossa proximidade, a nossa compreensão, os nossos conselhos e, acima de tudo, a nossa oração.

 

Outros tipos de prisões

Mas esta obra de misericórdia não se limita aos presos que foram julgados e condenados pelo sistema de justiça. Deve ser estendida a todos aqueles que estão aprisionados, não em celas, mas em redes de outro tipo: álcool, pornografia, drogas e vícios que mergulham a pessoa num abismo do qual dificilmente poderá sair sozinha. Também a esses a nossa visita compassiva e misericordiosa deve apontar caminhos de libertação que passam necessariamente pelo encontro com Cristo Ressuscitado.

 

É possível ser diferente…

O P.e João Gonçalves, para imitar Jesus Cristo que veio para «proclamar aos aprisionados a libertação» (Lc 4, 18), passa a vida a visitar os presos. Conta: «Mais do que um sentimento de solidariedade ou até humanismo, a visita aos presos é obra de misericórdia, no sentido em que o coração passa a bater a outro ritmo e volta-se de forma espontânea para rostos que retratam os sentimentos que moldaram o próprio Jesus: a solidão, o abandono, o medo, a vontade de transformar a realidade presente. E, no final de cada visita, a lembrança de um sorriso, ou mesmo a lembrança de um rosto envergonhado e arrependido, alimentam a esperança de que é possível ser diferente. Vale a pena estar ali todas as semanas, porque, assim, a fé se torna uma fonte inesgotável de crescimento.»

 

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Por: Abel Dias

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