Livros para deitar fora

Janeiro 2019 / Mala da Alice

 

E lá começou um novo ano (todas as minhas crónicas de janeiro devem começar assim…)

E mais uma vez dou comigo a pensar que é mesmo necessário deitar muita coisa fora.

Muita coisa inútil que ao longo do ano vamos acumulando. E ficar apenas com aquilo de que precisamos ou que nos faz feliz.

E eu começo por olhar para as minhas estantes e penso que mais de metade dos livros que para ali estão bem podiam ir parar ao caixote do lixo…

Mas tenho de confessar uma coisa: não sou capaz de deitar livros fora.

De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objetos se vão acumulando e eu perguntando-me: «O que é que faço a isto?» Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes ou quadros com o brasão de juntas de freguesia de terras que nem sei onde ficam.

Mesmo assim, de vez em quando tapo a vista com a mão, encho-me de coragem, e reúno sacos a abarrotar de lixarada, e venho colocá-los à noite ao lado dos contentores, não vá passar alguém que ainda lhes descubra serventia.

Mas livros é que não.

Livros não sou mesmo capaz.

O pior é que, para lá de receber muitos livros (os meus amigos pertencem quase todos ao ramo…), eu ainda sou uma compradora compulsiva! Compro livros porque são de autores de que eu gosto, ou porque li uma crítica que me entusiasmou, ou até – assumo… – porque têm capas que são um espanto.

Então, periodicamente, encho caixotes de livros que vou enviando para bibliotecas ou escolas: livros que sei que nunca mais vou reler, livros que tenho em várias reedições, ou até livros de que eu, pessoalmente, até posso não gostar mas entendo que outros amem de paixão.

Mas não é desses que estou a falar: refiro-me àqueles que não mereceriam (se eu fosse capaz…) outro destino a não ser o lixo. Tão maus, ou tão inúteis, ou tão fora de prazo que não me passa pela cabeça dá-los nem ao meu pior inimigo.

Nos primeiros tempos da revolução, quando, de repente, descobrimos que podíamos viajar para os países até então proibidos da Europa de Leste, era fatal: regressávamos todos de lá vergados ao peso de toneladas de volumes encadernados com todas as intervenções dos camaradas nos diversos órgãos de soberania dos seus países. E – requinte dos requintes! – muitos deles na língua original.

Lembro-me de ter tido de comprar um saco só para nele enfiar os discursos do camarada Jivkov, em búlgaro, que me ofereceram na minha primeira ida à Bulgária.

Digam-me: O que é que eu lhes faço?

Contava o escritor Alçada Baptista que uma das suas tias, ao ver-se confrontada com a pergunta de uma das criadas («O que é que eu faço às listas velhas do telefone?»), terá respondido: «Dê-as a um pobrezinho.»

Se calhar, vou seguir-lhe o exemplo. Tal como eu, ela também era de um tempo em que não se deitava nada fora.

Por: Alice Vieira

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