Livros e livrarias

Maio 2017 / Mala da Alice

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A minha amiga Teresa reformou-se depois de muitos anos de correrias e de trabalho intenso num hospital.

Há tempos contava-me:

– Um dia destes, dei comigo a pensar que já não atravessava o Tejo de barco há uma data de anos. Então decidi ir apanhar o cacilheiro. Arranjei-me à pressa, lá fui a correr e ainda consegui apanhar o barco que estava mesmo quase a partir. Sentei-me ali a deitar os bofes pela boca fora… e, de repente, pensei: «Mas porque é que vim a correr? Não tenho hora de chegar, nem de voltar, ninguém me espera…» Fiquei mesmo danada comigo!

Pois é. As pessoas estão tão habituadas a andar sempre a correr que nem entendem quando podem abrandar… quando podem ter tempo para perder tempo.

É isso muitas vezes o que se passa com os pais, quando chega o fim de semana, ou as férias. O ritmo da semana continua – e há sempre um telefonema a fazer, o correio eletrónico a consultar, um trabalho para adiantar.

Ainda há pouco tempo o Papa Francisco exortava os pais a irem brincar com os filhos nos jardins depois da missa de domingo. Porque brincar é das coisas mais sérias que existem.

E no conceito de “brincadeira” podemos – e devemos – sempre incluir os livros. Que não podem nunca ser encarados como um aborrecimento, ou um frete, ou qualquer coisa difícil de entender.

Ainda hoje é raro encontrarmos os pais com os filhos pequenos numa livraria, deixando-os mexer nos livros e escolhendo aqueles de que gostam mais.

Lembro-me de há muito tempo ter lido num artigo de jornal: «Se as crianças estão habituadas a escolher a roupa e os sapatos, porque não hão de escolher os livros?»

Quando os meus netos eram pequeninos e viviam na cidade inglesa de Leicester, um dos nossos passatempos preferidos era, quando eles saíam da escola, entrarmos na Waterstone (uma livraria de vários andares!) e ali ficarmos a ver livros. Ainda por cima a livraria tinha no segundo andar um café com sofás onde podíamos ficar a folhear os livros que tínhamos trazido do andar de baixo, para ver se gostávamos, se queríamos levá-los ou se queríamos trocá-los por outros… Se não gostávamos muito, voltávamos ao andar de baixo, escolhíamos outros e voltávamos com eles a enterrar-nos nos sofás… e a comer muffins (que são uns bolos sem graça nenhuma que por lá se comem muito, e que ainda são do melhor que a terrível cozinha britânica nos dá… Enfim, não se pode ter tudo…)

Eram tardes de que os meus netos ainda hoje se lembram. Até porque os empregados os tratavam como adultos. Lembro-me de um que andou horas pendurado em escadotes para procurar em todas as prateleiras um livro que a minha neta Adriana queria muito, chamado Angelina Ballerina, que contava as aventuras de uma ratinha que queria ser bailarina. O rapaz tratou de tudo com uma seriedade e um profissionalismo como se estivesse diante de um cliente adulto que lhe pedisse, sei lá, uma edição rara das peças do Shakespeare, ou coisa parecida.

E claro que acabou por encontrar.

Era bom que estes exemplos também proliferassem por cá.

Pais que “perdessem” tempo a levar os filhos às livrarias.

Empregados de livrarias que “perdessem” tempo a encontrar o que as crianças querem.

E livrarias onde nos pudéssemos enroscar nos sofás a ler – como em nossas casas.

Por: Alice Vieira

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