Livro estragado

Janeiro 2019 / Mala da Alice

Aqui para nós, que ninguém nos ouve, há meses em que eu não faço ideia nenhuma do que vou aqui escrever. Como se costuma dizer, dá-me uma branca. Acontece a toda a gente. Quando estou mesmo aflita (o prazo de entrega mesmo, mesmo no limite…) normalmente digo:

– Vou à rua buscar uma história.

E a história acaba por aparecer.

Mas confesso que, desta vez, estava difícil. Ou as histórias não chegavam, ou chegavam mas eu não estava com ouvido para elas.

Já me tinha encharcado em cafés, já tinha olhado para o rio de todas as maneiras que o Bairro Alto nos permite (costuma ajudar…), até que decidi entrar numa livraria.

Eu entro numa livraria como quem entra num santuário, onde o direito de asilo nos é sempre garantido. Nas cidades que não conheço, é sempre o primeiro lugar que procuro e nunca resisto a entrar quando uma se atravessa no meu caminho. As livrarias fazem parte da minha vida. São amigas de infância. É nelas que marco encontros com amigos – e elas ficam sempre agarradas a mim, mesmo que sejam em países distantes, onde não posso ir sempre que me apetece. (Devo confessar que morro de saudades da Utopie, de Bordéus, da Sagesse de Périgueux, e da Aténeo de Buenos Aires… Nelas desfiz muitas neuras, mas também refiz muitas energias.)

Mas esta em que eu entrei nem sequer se podia chamar bem, bem livraria. Era daquelas resistentes que ainda conseguem manter a porta aberta vendendo revistas de bordados e croché, calendários e postais ilustrados, mapas de Lisboa, bibelôs típicos e isqueiros, e muitos daqueles velhos volumes de edição de autor, que vão acumulando pó porque já ali estão há que anos, com um cheiro a papel que se esfarela nos dedos e me traz à lembrança os livros de histórias lidos na infância.

E foi mesmo por ter descoberto um livro desses pelo meio daquela imensa confusão que eu decidi entrar. Era um livro com meia dúzia de páginas, que alguém me tinha dado em criança, uma história em verso de dois «irmãos órphãozinhos» perdidos no meio da neve, de que eu tinha gostado muito mas de que, à distância destes anos todos, tinha perdido o rasto. Só não tinha perdido a recordação da capa e do cheiro do papel.

A dona da loja (e também tão velha como ela) lá fez um esforço enorme para o tirar da prateleira sem que o resto da tralha lhe caísse todo em cima, mas depois foi um sarilho para encontrar o preço. Virou e revirou o livro, abriu gavetas, fechou gavetas, consultou papelada, meteu-se pelos fundos da loja e voltou de mãos a abanar e a coçar a cabeça.

Até que, encolhendo os ombros e não sei por que estranhos cálculos, me propôs:

– Um euro, acha bem?

Era a primeira vez na minha vida que comprava um livro por um euro, e claro que aceitei logo, não fosse a velhota mudar de ideias e de repente imaginar que teria nas mãos algum tesouro que devia valer muito, senão não estava ali aquela maluca tão interessada nele.

Já eu ia a sair com o meu tesouro debaixo do braço quando entra uma jovem pela loja dentro, ar muito aborrecido, que atira com um livro para cima do balcão e diz, pelo meio da pastilha elástica:

– Venho trocar esta porcaria, que está estragada.

Mascou mais uns segundos e continuou:

– Vocês deviam ter muito cuidado com as coisas que vendem. Depois, se o pessoal deixar de cá vir, e vocês tiverem de fechar as portas, ai, ai, ai que é a crise!

Mais umas mascadelas, enquanto a velhota olhava, em silêncio, para o livro.

– Depois dizem que a gente não lê, que somos uns ignorantes, que só queremos é estar nos chats e no Facebook… Mas quando a gente até faz um esforço, é isto!

A velhota já olhou de todos os ângulos para o livro, já o abriu e fechou, não havia páginas rasgadas nem manchas em lado nenhum, mas a jovem não parava:

– Não vê que está estragado?

Como a dona da loja não conseguisse mesmo ver onde estavam os estragos, a jovem abre o livro e enfia os dedos pelas páginas.

– Está a ver? As folhas estão todas juntas, todas pegadas. Como é que se pode ler um livro assim?

Como a velhota continuasse a não entender nada, decidi fazer a minha boa ação do dia e – sem me rir, palavra! – expliquei à jovem que aquela era uma edição antiga, e que dantes era assim que todos os livros se publicavam, e que bastava ela pegar numa faquinha e abrir, e logo podia ler o livro à vontade, e que até havia faquinhas de propósito para isso.

– Facas para livros???? – exclama ela, com uma série infindável de pontos de exclamação nos dois olhos. – Nunca ouvi falar.

Fez uma leve pausa.

– Cá para mim, continua a ser um livro estragado, mas prontos.

E lá foi à vida.

A velhota, essa, acho que nunca chegou a perceber de que é que a rapariga se queixava.

Por: Audácia