Johnson dá pontapés no crime

Fevereiro 2016 / Campeões

O exemplo de Johnson, aliado ao desporto, está a dar esperança a jovens em risco.

 

 João Semedo Tavares não é um craque do desporto. É um herói da vida. O seu exemplo, aliado ao desporto, está a servir para dar esperança a outros jovens desfavorecidos.

Nascido em S. Tomé e Príncipe, o menino ágil e forte chegou a Portugal no ano da Revolução (1974), com 2 anos, para se juntar ao pai, que já vivia na Cova da Moura, um bairro de pobres nos arredores de Lisboa. Rapidamente passou a ser conhecido por Johnson e enveredou pela delinquência, revoltado com o racismo e a pobreza. Não tendo o que os outros tinham, usava a força para lhes impor medo. Tanto mal fez que acabou condenado a uma longa pena de prisão, tendo cumprido dez anos, sempre consumindo drogas.

 

Há dez anos, após duas décadas de delinquência, toxicodependência e criminalidade, Johnson decidiu salvar-se. E encontrou logo um estímulo adicional: «Salvando-me a mim posso ajudar outros a salvarem-se.»

É isso que tem feito, por meio do futsal, com a Academia do Johnson, recrutando jovens de ambos os sexos nos problemáticos bairros 6 de Maio, Boavista, Zambujal e Cova da Moura.

«Quem acompanha os jovens que saem das casas de correção ou da cadeia?», pergunta, farto de saber a resposta. É, sobretudo, a esses jovens que Johnson se dedica agora. E, também aqui, o desporto tem sido o facilitador da missão. «É o melhor para livrar os jovens dos ímanes negativos», confirma.

A diferença, neste caso, é o próprio Johnson e o seu exemplo. Além de ser treinador de várias equipas de futsal, considera-se “pai” de 120 rapazes e raparigas que vivem com dificuldades, incluindo graves problemas familiares.

O objetivo da Academia do Johnson não é criar Ronaldos ou Messis do futsal. «Se surgirem, muito bem. Mas o que nós queremos mesmo é moldar o caráter», admite.

 

«O meu sonho é conseguir que os nossos jovens dos 13 aos 18 anos trabalhem com os mais novos, dos 6 aos 12 anos», diz Johnson, orgulhoso da sua obra, ainda a dar os primeiros passos. Apesar de ter alguns apoios, a Academia, nascida em 2014, precisa de voluntários para acompanhamento escolar (explicações), psicólogos e outros profissionais de saúde com facilidade de relacionamento com jovens, que estão em risco.

Além gerir a Academia, Johnson trabalha como motorista e fala para jovens reclusos, incentivando-os a mudarem de vida, como ele fez, tocado por três gestos: 1.º – Uma assistente social que dispensou os guardas que a protegiam de Johnson (“Nunca tinha sido tratado assim”); 2.º  – As lágrimas do pai, pouco antes de morrer no hospital, quando o viu («Depois de todo o mal que fiz, ele ainda gosta assim tanto de mim?»); e 3.º  – A insistência de uma técnica de reinserção social para falar com ele quando se incompatibilizou com o técnico que só o recriminava («Foi ela que me compreendeu e apoiou a minha recuperação»).

Por: Luís Óscar

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