Já não escravos, mas irmãos…

Fevereiro 2015 / Valores de sempre

Não podemos desviar o olhar dos sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs em humanidade, privados da liberdade e da dignidade. Se o fazemos, somos cúmplices da escravidão. Isto nos lembrou o Papa Francisco no Dia Mundial da Paz.

A palavra «escravatura» evoca imagens de tempos passados, dos milhões de pessoas que foram um dia acorrentadas, despojadas da sua dignidade e tratadas como se não fossem seres humanos. O Papa Francisco, na mensagem para o Dia Mundial da Paz, a 1 de janeiro passado, diz que o mundo conhece a escravidão há muito tempo, tendo passado por períodos em que o fenómeno foi admitido e até regulamentado. De seguida, realça a «evolução positiva da consciência da humanidade», graças à qual a escravidão, «delito de lesa-humanidade», foi «formalmente abolida no mundo». Para isso muito contribuíram os períodos seguintes às duas guerras mundiais do século passado; a corrente humanista conseguiu aprovar, em 1926, a Convenção sobre a Escravatura, a Convenção para a supressão do tráfico de pessoas e da exploração da prostituição, em 1949 (no dia 2 de dezembro, razão pela qual se celebra nesse dia o Dia Internacional para a Abolição da Escravatura) e a Convenção Suplementar sobre a abolição da escravatura, em 1956, nas quais os Estados assumiram compromissos de nunca mais autorizarem determinadas práticas desumanas nas relações entre as pessoas e nas instituições.

Contornos atuais…

A escravatura, tal como é apresentada nos livros de História, acabou, mas, infelizmente, existem hoje novas formas desta realidade que a colocam nos níveis mais altos de todos os tempos. No século xxi há mais escravos do que em qualquer outra época da história mundial. É a chamada «escravatura moderna». «Milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura», denuncia o papa. A sociedade de hoje assiste a novas formas de escravatura e desumanidade que tornam urgente uma reflexão sobre a injustiça de uns viverem desafogadamente, à custa do sofrimento e da míngua de recursos de muitos seres humanos. Segundo o relatório «The Global Slavery Index 2013», da organização não governamental Walk Free, estima-se que atualmente 28,9 milhões de pessoas são forçadas a viver em regime de escravidão em todo o mundo. A mesma organização coloca Portugal próximo do fim da lista dos países com mais casos de escravatura, em 147.o lugar, entre 162 países. Ainda assim, Portugal tem 1368 escravos, segundo o Índice da Escravatura Moderna.

Escravatura moderna

Segundo o Papa Francisco, a raiz destas novas formas de escravatura radica na «rejeição da humanidade no outro» que conduz à «conceção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objeto», como «meio, e não como fim». Entre os alvos da exploração do ser humano estão as vítimas do trabalho escravo, os migrantes privados de liberdade e dos seus bens, vítimas de abusos físicos, detidos de maneira desumana, dependentes de patrões que condicionam a legalidade da sua permanência ao contrato de trabalho, os escravos sexuais, em particular as mulheres obrigadas a prostituir-se ou vendidas para casamento, os menores vítimas de «tráfico e comercialização para remoção de órgãos», ou convertidos em soldados, ou envolvidos em «atividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou para formas disfarçadas de adoção internacional».

A pobreza, a falta de acesso à educação, a inexistência de oportunidades de trabalho, as «redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos», recorrendo até às «tecnologias informáticas», os conflitos armados, a violência, a criminalidade, o terrorismo e a corrupção que passa por «membros das forças da polícia, de outros atores do Estado ou de variadas instituições, civis e militares» constituem igualmente causas da escravidão, que se verifica «quando, no centro de um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana». O papa relembra que há indivíduos e grupos que se aproveitam vergonhosamente desta escravatura, tirando disso partido e lucro.

Mobilização mundial

Perante a dimensão do problema, o Papa Francisco propõe um compromisso global de «prevenção, proteção das vítimas e ação judicial contra os responsáveis» pelas formas de escravatura e tráfico humanos. «Por esta razão, lanço um veemente apelo… para que não se tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo».

 

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Por: Abel Dias

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