Geografia e descobertas

Maio 2017 / No princípio era o verbo

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Um campanário diferente

E a propósito de lexicógrafos: no meio das pessoas, estou sempre erectis auribus, com orelhas em pé, porque, se estivermos atentos, aprendemos sempre alguma coisa. Se estamos a ler, também convém ter um lápis à mão. Ao ler o jornal, topei, não com uma palavra nova, mas com um sentido que ignorava: «Aos 13 anos participou num campanário, um campo vocacional para rapazes. “Foi uma semana cheia de aventuras e brincadeiras, mas que não deixava de ter essa parte exigente que nos ia dando um toque sobre o que o Deus nos pede.” No final do encontro, ao verem a sua dedicação, os sacerdotes convidaram-no a entrar no pré-seminário» («“Se nada custasse, o que tinha eu para oferecer a Deus?”», Carolina Azevedo Ferreira, Público, 2.04.2017, p. 8).

Ora, não era só eu que desconhecia este sentido, mas também os lexicógrafos, pelo que propus que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o incluísse, o que fez: Campanário vocacional [religião] «Campo de férias para jovens, organizado de forma a permitir que, além de convívio, aventura e diversão, estejam também garantidas condições de espiritualidade, necessárias à possível descoberta de uma vocação religiosa».

 

Da família dos Fasianídeos, hein?

Porque chamamos peru à ave galinácea, doméstica, da família dos Fasianídeos, portadora de cauda grande? Alguns lexicógrafos, criaturas prudentíssimas, sugerem que pode, pode!, estar relacionado com o topónimo Peru.

Mas comecemos pelo princípio, que, no caso, se situa algures no século XVI. Quando os espanhóis começaram a explorar a América do Norte, o que passou também por dizimar populações autóctones, deram com uma espécie de galinha gorda, domesticada já pelos astecas, que lhes lembrava os pavões, que conheciam bem e em castelhano se dizia pavo. Ora bem, os exploradores trouxeram alguns exemplares para a Península Ibérica e passaram a chamar-lhes… pavos. Sim senhor, isto é que foi imaginação! Entretanto, no meio da confusão que se foi gerando, alguém se lembrou de começar a chamar ao pavão, pavo real, ou seja, autêntico, e ao peru simplesmente pavo. Sim, porque outro pavo era parvo. O pavão, oriundo da Ásia e que fora introduzido na Europa durante a Antiguidade clássica, ele sim verdadeiramente real pelo leque formado pela sua cauda multicor, não se podia ver reduzido a quatro letrinhas. Já não havia confusão.

Passemos agora para este lado da raia: a ave americana também chegou por esta altura, ou pelas suas patas ou já assada, a Portugal, e também foi preciso arranjar-lhe nome. Ora, as possessões castelhanas nas Américas, pelo menos do Panamá para baixo, eram então genericamente conhecidas por Perú, Birú, Pirú, algo à volta desta grafia. É verdade que a ave era originária do território dos Estados Unidos e do México, mas os portugueses não quiseram perder tempo com minudências, pois a possante ave estava já ali acabadinha de assar e a arrefecer. Ficou peru. Mas a Europa é mais do que a Península Ibérica, e outros povos também se viram um pouco às aranhas. Em inglês, passou a ser turkey, ou seja, uma galinha turca. Já em França acharam que dinde era perfeito, pois o animal viera, acreditavam eles, d’Inde, «da Índia». Em neerlandês, ficou conhecido como kalkoen, «galinha de Calcutá».

Por: Helder Guégués

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