Francisco e o irmão mar

Julho-Agosto 2017 / Casa Comum

 

Teatro: Para ser lido ou representado

Personagens: Francisco de Assis, Mar, João e Maria

 

FRANCISCO: Paz e bem, irmãos. Já viajei pelo Norte e Sul do mundo. Já conheci vários países. Estou a cumprir a missão que me foi confiada pelo Papa Francisco: ver de perto como os seres humanos estão a construir ou a destruir o futuro do mundo. É um desafio que já me trouxe rugas e cabelos brancos. Ai, quantos problemas!

MAR: Posso falar contigo?

FRANCISCO: Sim, claro.

MAR: É muito urgente!

FRANCISCO: Compreendo. Já ouvi criaturas que te habitam, como as pescadas e o congro. Todas me contaram as suas aflições.

MAR: O que te quero dizer é ainda mais grave. Eu concordo que chamem Casa Comum à Mãe Terra, mas preocupa-me que se esqueçam que essa mãe está rodeada pelo Pai Mar. Isto é, por mim, um mar colossal, imenso…

FRANCISCO: É verdade que o meu olhar perde-se no horizonte sem fim das tuas águas. És realmente imenso.

MAR: É aí que está o perigo. Sou grande e poderoso. E não quero crescer mais.

FRANCISCO: E quem te obriga a crescer?

MAR: A doença de que padeço: tenho febre, azia, estou a inchar.

JOÃO: Se a temperatura da Terra continuar a aumentar, a catástrofe será irremediável.

MARIA: A doença da Mãe Terra é também a do Pai Mar, e a de todos os seres vivos. Chama-se poluição, efeito de estufa e alterações climáticas.

MAR: Esta é uma peste recente, que não foram ratos nem insetos que a causaram. Foram os humanos quando encheram o mundo de gases muito quentes.

FRANCISCO: A irmã Chuva já me explicou que esses gases saem das chaminés, dos escapes dos carros…

MAR: Ai. Esses gases sufocam-me, não me deixam respirar. O mar também respira, sabiam? Ora, os gases dão-me febre. E, quando a minha água aquece, expande-se, e eu ocupo mais espaço. E para piorar…

FRANCISCO: Piorar? Mais ainda?

MAR: Os gelos glaciares dos polos e das cordilheiras estão a derreter e toda essa água doce desagua em mim. Assim, eu cresço ainda mais. Subo, subo como uma maré sem controlo. Ai, ai! Vão transformar-me num assassino em série. Alagarei os litorais, farei desaparecer cidades costeiras, acabarei com países, sobretudo os insulares.

JOÃO: Um de cada quatro habitantes da Terra vive junto do mar.

MARIA: A maioria das cidades está situada no litoral.

JOÃO: Se a temperatura do planeta sobe dois graus…

MARIA: Haverá ondas de calor asfixiantes.

JOÃO: Desencadear-se-ão furacões de extrema violência.

MARIA: Inundar-se-ão cidades litorais de todo o mundo.

JOÃO: Se sobe três graus…

MARIA: A Amazónia converte-se num deserto.

JOÃO: Cidades inteiras ficarão sem uma gota de água para beber.

MARIA: E se sobe quatro graus…

JOÃO: Desaparecem os polos, transbordam os oceanos.

MARIA: Morre metade das espécies do mundo.

JOÃO: E se sobe cinco graus…

MARIA: Desaparece a espécie humana e quase não sobrará vida na Terra.

FRANCISCO: Não quero ouvir mais, irmãos. Temos de fazer algo e rápido. Temos de mudar!

Por: Audácia

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