Francisco e o Irmão Coltan

Novembro 2017 / Casa Comum

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Teatro: Para ser lido ou representado.

Personagens: Francisco de Assis, Coltan, Congolesa, Congolês, Maria e João

 

FRANCISCO: Paz e bem! Este mês estou na África. Quero saber o que acontece por estas terras.

COLTAN: Fala comigo, Francisco.

FRANCISCO: Quem é tu? Não vejo ninguém…

COLTAN: Estou dentro da terra.

FRANCISCO: Então, porque te ouço tão claramente, se estás tão escondido?

COLTAN: Porque eu sou um bom condutor de eletricidade. É por isso que me usam nos telemóveis, computadores de bordo e outras tecnologias de comunicação, que equipam desde os meios de transporte do cidadão comum até às estações espaciais e naves tripuladas e não tripuladas e, também, armas sofisticadas.

FRANCISCO: Como te chamas?

COLTAN: Chamam-me coltan. É a combinação de duas palavras que correspondem aos dois minerais que me compõem: a columbita e a tantalita. Sou negro, raro e muito escasso. Nasci na República Democrática do Congo, no coração da África. Antes, eu vivia tranquilo nas profundezas da terra. Nem sequer me conheciam. Mas agora matam-se por mim. Andam desesperados por encontrar-me, porque necessitam de mim…

CONGOLÊS: Na RD Congo encontram-se 80 % das reservas mundiais de coltan, sobretudo no Norte do país. Para controlar a região e explorar este recurso natural, desde 1998 tem havido guerras após guerras.

CONGOLESA: Sim, irmão Francisco, estás a pisar terra manchada de sangue. Perto de seis milhões de homens, mulheres e crianças morreram aqui.

JOÃO: As empresas das novas tecnologias querem sempre mais coltan. Então, abrem-se mais minas para extrair os minerais.

CONGOLÊS: Minas onde trabalham adultos e crianças, de sol a sol, como escravos. Comem e dormem nas imediações das minas. Um mineiro pode extrair um quilo de coltan por dia. E recebe dois dólares. As crianças ganham muitíssimo menos: 25 centavos de dólar diários. Mas a empresa receberá 500 dólares por aquele quilo. Por isso, as empresas que exploram as minas compram e vendem armas, organizam guerrilhas, contratam mercenários para as vigiar. Adolphe Onusumba, que foi líder do movimento rebelde Reagrupação Congolesa para a Democracia (RCD), afirmou: «Com a venda de diamantes, ganhávamos cerca de 200 mil dólares ao mês. Com o coltan, chegámos a ganhar mais de um milhão de dólares por mês.»

MARIA: Na RD Congo, a exploração das minas arrasa florestas, transforma campos de cultivo em lodaçais e contribui para o extermínio de gorilas, elefantes e outros animais. Elas parecem formigueiros. São longos túneis escavados nas colinas. E libertam radiações mortais de urânio e rádio.

JOÃO: Por todo o mundo, os aparelhos eletrónicos, se é certo que ajudam muito as pessoas, estão a enlouquecê-las. Compram e, em seguida, descartam, para comprar o último modelo.

FRANCISCO: E são milhões de milhões os aparelhos das novas tecnologias usados pelos sete mil milhões de habitantes que povoam a Terra…

COLTAN: Em todos eles há um pouco de mim. E, em todos eles, há muito sangue deste povo congolês.

Por: Audácia

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