Francisco e a irmã soja

Maio 2017 / Casa Comum

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Teatro: Para ser lido ou representado.

Personagens: Francisco de Assis, Soja, Filipe, João e Maria.

 

FRANCISCO: Paz e bem, irmãos. Hoje estou na Argentina. A minha vista perde-se na imensidão destas planícies. Tudo verde e muito bem plantado… Magnífico!

SOJA: Não é assim tão belo. Não te iludas.

FRANCISCO: Quem és tu, que nunca te vi?

SOJA: Sou a soja. Nasci e vivia tranquila na China e no Japão. Trouxeram-me para aqui. Semeiam-me por toda a América.

FRANCISCO: Porque dizes que estas culturas não são magníficas?

SOJA: Porque me aborreço, Francisco. Há uns anos, eu crescia na fazenda do Sr. Felipe, um agricultor que teve de ir-se daqui. Ele semeava cevada, cenouras… Havia, até, erva-mate para fazer infusão e alegrar o coração, e comida abundante. As vacas pastavam. Vinham famílias e preparavam churrascos. Era muito divertido.

FRANCISCO: E agora?

SOJA: Estamos sozinhas e cansadas. Milhões de plantas de soja. Todas iguais, todas repetidas… Uma monotonia! Um problema!

FRANCISCO: Como se chegou a esta situação?

SOJA: Foi a ambição. Os novos fazendeiros põem o dinheiro acima das pessoas, acima da Natureza. Escuta o meu patrão.

FELIPE: Vieram umas pessoas… Eram de uma empresa. Disseram-nos que, se queríamos ganhar muito dinheiro, que semeássemos soja. Asseguraram que comprariam a colheita. Convenceram-me. Depois, concederam-me um crédito para a soja. Com juros, claro. A seguir, tudo correu mal… Tinha de comprar os fertilizantes deles, os inseticidas… E nunca consegui pagar-lhes… Por fim, tive de lhes vender as minhas terras…

SOJA: É isso que fazem, Francisco. Para ganhar mais e mais, plantam só uma coisa. Chamam a isso monocultura. Um campo imenso com soja, só soja.

FRANCISCO: A criação de Deus não trabalha assim. Deus sabe de sobra que é na variedade que está a beleza e a utilidade.

SOJA: Com a monocultura, adoecemos, porque não há outros cultivos que afastem as pragas; necessitamos de adubos químicos, porque não há vacas; e de pesticidas, porque não há insetos. Encharcam-nos de venenos. A terra fica exausta, seca, e nós também.

FRANCISCO: Que barulho é este?

SOJA: Tapa o nariz… É um avião que está a pulverizar com um veneno terrível… Foge!

FRANCISCO: Uff! Já se foi embora. Ao menos, sobra-te o consolo de alimentares muitos filhos de Deus.

JOÃO: Não, Francisco. A maior parte da soja destina-se aos animais e, recentemente, com o seu óleo, fazem-se combustíveis: o biodiesel e o etanol…

MARIA: Como o petróleo está caro, decidiram recorrer aos biocombustíveis à base de soja, palma africana, milho, cana-de-açúcar…

FILIPE: E o problema é que há tantos automóveis no mundo que para alimentá-los precisam de terras e mais terras…

MARIA: Mais terras para alimentar motores significa menos terras para alimentar pessoas.

JOÃO: E os alimentos sobem de preço, causando fome e convulsões sociais.

FILIPE: Entretanto, planícies e florestas transformam-se em desertos verdes e, depois, dourados, de monoculturas de soja. E os agricultores, como eu, tornamo-nos ninguém nas cidades para onde temos de migrar…

FRANCISCO: Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra, desnudando a terra das suas florestas naturais… tudo isso é pecado. Porque um crime contra a Natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus (Laudato Si’, 20).

 

Adaptado da série radiofónica Laudato Si’ da Rede Eclesial Panamazónica (REPAM). Podes ouvir os áudios em http://zip.net/bttm7m

 

Por: Audácia

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