Teatro ecológico Para ser lido ou representado
Personagens: Francisco de Assis, Neve, Boliviana, Boliviano, Cientista, Maria e João
FRANCISCO: Irmãs e irmãos, a paz do bom Deus esteja convosco! Estou quase no cume do Huayna Potosí, na Bolívia. Que vista tão linda se tem daqui! E que frio! Saúdo-te, irmã Neve.
NEVE: Calorosas boas-vindas à nossa fria casa, irmão Francisco!
FRANCISCO: Mas vejo que estás mal, agonizante…
NEVE: Eu e as cordilheiras ao redor: as do Peru, da Colômbia, do Chile… e todos os cumes gelados do mundo te diriam o mesmo. Estamos em agonia.
FRANCISCO: Como é que isso aconteceu?
NEVE: Nós, as neves, podemos viver milhões de anos tranquilas, crescendo no inverno e alimentando em silêncio os mananciais e enchendo o mundo de água cristalina quando a temperatura aumenta…
BOLIVIANA: Sim, chegava a primavera e os rios e os riachos transbordavam com a água que nos brindava a irmã Neve.
BOLIVIANO: Os cumes nevados são sábios e generosos. São a cabeça da anciã mãe Terra, a sua cabeça grisalha e sábia…
FRANCISCO: E agora?
NEVE: Até há pouco tempo, a minha brancura chegava até lá longe, mais do que a tua vista alcança, mas agora, olha no que me tornei. Estou a derreter. Dentro de alguns anos já não me verão.
MONTANHISTA: Cada vez chegamos mais cedo ao cume, porque cada vez há menos neve nas vertentes.
JOÃO: Por causa das alterações climáticas!
NEVE: E o calor, além de derreter-nos, suja-nos, transforma-nos em neve escura.
MARIA: Neve escura?!…
NEVE: Nós somos brancas, mas por causa da fuligem dos incêndios, do pó negro que sai dos motores e das fábricas, estamos a escurecer e já não podemos cumprir a tarefa que devemos à Mãe Terra.
MARIA: É como a roupa branca, que reflete os raios solares, e a roupa escura, que os absorve…
NEVE: E com mais calor, derreto ainda mais depressa.
CIENTISTA: Se nada for feito, nos próximos quarenta anos, as neves da Bolívia terão desaparecido – como já desapareceram no Peru –, e o lago Titicaca ficará sem água.




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