Fátima em 1917…

Fevereiro 2017 / Caminhantes de Fátima

 

Aldeia de Aljustrel, no sítio da Cova da Iria, pertencente à freguesia de Fátima. Na década de 1910, ali vivem 123 pessoas, de um total de 2348 que povoam Fátima. Pertence ao concelho de Ourém, ao distrito de Santarém e à diocese de Lisboa. Nesta altura, a população portuguesa ronda os seis milhões de habitantes.

Fátima é uma freguesia rural. Situa-se no maciço calcário entre picos e vales da serra de Aire. O solo rochoso é pobre em nutrientes. A água é escassa, apesar dos invernos chuvosos. E os verões são quentes e secos. Apesar disso, despontam oliveiras, carvalhos, azinheiras, figueiras e medronheiros. A população vive da extração de pedra, da construção civil, alguma agricultura e da criação de ovelhas e cabras.

A aldeia de Aljustrel, porém, não é uma “aldeia perdida” nas faldas da serra de Aire, apesar da sua ruralidade e pobreza. Nela há bastante vitalidade social, política e religiosa. O jornal semanário católico de Leiria, chamado O Mensageiro, refere numa das edições de 1914: «Em quase todas as freguesias se faz a devoção ao rosário com bastante concorrência […] A mobilização de um contingente português para a guerra traz apreensivo este povo, que não cessa de implorar a clemência divina.»

Em fevereiro de 1915, O Mensageiro noticia: «Realizou-se no dia 2 do corrente uma tocante festividade na Igreja paroquial desta freguesia [de Fátima]. Aproximaram-se da sagrada mesa eucarística 200 crianças devidamente preparadas pelo digno pároco, que receberam a Jesus Sacramentado.»

E com regularidade, o jornal reporta feiras e romarias, descreve as atividades agrícolas e comerciais das gentes locais e de outras que vinham de fora, por exemplo, para a apanha da azeitona, assinala o grande dinamismo religioso, refere também alguns conflitos e desacatos entre facções políticas e testemunha a vida familiar de alguns ilustres da região.

É ali em Aljustrel que vivem três primos – porque as mães deles são irmãs –, que em breve irão viver uma experiência singular: Lúcia dos Santos e os irmãos Francisco e Jacinta Marto, de 10, 8 e 7 anos, respetivamente.

Não frequentam a escola. São pastores. Lúcia toma conta dos primos. Francisco é um rapaz calmo. Gosta de música. Toca pífaro. Jacinta é uma menina afetiva e muito afável.

Enquanto levam as ovelhas a pastar, brincam e contam histórias. Também rezam. O pai de Francisco e Jacinta conta que ela, desde que aprendeu a rezar a ave-maria, diz, em vez de «cheia de Graça», «cheia de Graças», e ninguém consegue corrigi-la. Em casa, aprendem a pensar nos outros e a rezar por eles.

Por: Fernando Félix

One Response to "Fátima em 1917…"

  1. orlando de carvalho Posted on 20 de Fevereiro de 2019 at 11:47

    Uma boa colectânea de textos, Fernando.