Falando de Natal e de presentes

Dezembro 2014 / Mala da Alice

Sempre que possível, gosto de fazer eu própria as minhas prendas. E, de uma maneira ou de outra, por este ou aquele motivo, eu tenho de estar presente nos presentes que dou pelo Natal.

 

Todos aqueles que me conhecem sabem que adoro o Natal. Mas todos sabem também que odeio a loucura consumista do Natal. De repente, as pessoas parece que são outras, que alguma coisinha má lhes passou pela cabeça transformando-as em pessoas sem paciência para nada, sempre aos gritos, aos safanões a quem passa por perto, às mais descabeladas correrias por ruas, estações de metro, corredores de lojas, eu sei lá.

Tudo porque se atrasaram e mesmo, mesmo na véspera de Natal (ou na antevéspera, vá lá…) é que se lembraram que não compraram a prenda para a tia, para os primos, para a sogra, para a vizinha do 6.0 andar.

Comprar as prendas é também para mim um ritual. E devo dizer que, a esta hora, ao tempo que já tenho todas as prendas prontas! Porque muitas delas começaram a ser preparadas há meses!

Sempre que possível, gosto de fazer eu própria as minhas prendas.

E aquelas horas que passo diante do televisor a ver as séries de que não prescindo (está bem, tem muito pouco de natalícia, mas confesso que nunca prescindo dos episódios extraordinários da série inglesa Midsomer Murders, que é certamente a série com mais mortos por minuto…) e a telenovela portuguesa Bem-Vindos a Beirais (o meu vício…) — são também aproveitadas para ir tricotando o que é preciso. Chego ao Natal e há cachecóis, mantas de quadrados, mantas às riscas, panos de tabuleiro, e pegas para os tachos para todas as minhas amigas.

Há uns anos, a minha amiga Cristina deu-me um saco de linho, grande, em que bordou: «As tralhas da Alice»… Acontece que, por motivos de trabalho, eu ando sempre de um lado para o outro, de cidade em cidade, de país em país — e de toda a parte trago sempre qualquer coisa, relacionada com o lugar onde estive, e que meto dentro deste saco. No Natal, despejo-o nas mãos das minhas netas. Garanto que é muito divertido…

Não dou nada a ninguém que não tenha uma razão de ser. Mesmo (ou sobretudo…) às crianças. Por isso detesto aquela teoria que algumas pessoas têm de «dar-dinheiro-aos-pais-e-eles-que-lhes-comprem-o-que-quiserem».

O Natal é outra coisa.

De uma maneira ou de outra, por este ou aquele motivo, eu tenho de estar presente no presente que dou.

Claro que isso leva muito tempo, claro que isso não se pode resolver nas correrias da véspera…

É evidente que, nos Natais em que tenho um livro novo, essa é seguramente uma prenda que dou a muitos. Mas, mesmo que não tenha, há sempre um ou outro livro que li e de que gostei tanto que quero vê-lo nas mãos de outras pessoas. A leitura é para ser partilhada.

Lembro-me de um ano em que tinha saído recentemente um livro do meu querido amigo (e grande poeta!) padre Tolentino Mendonça, chamado Um Deus Que Dança. Comprei logo alguns exemplares para dar a vários amigos no Natal. Mas, de vez em quando, lá me lembrava de mais um ou outro amigo, e voltava a entrar na livraria donde “gasto”, e comprava mais alguns. De tal maneira que um dia a funcionária da livraria me disse: «A senhora ainda acaba por esgotar esta edição toda!»

Livros, claro. Que no Natal as pessoas raramente dão. Não digo que estejam caros ou baratos (podemos discutir isso noutra altura…), mas podem ser presentes para a vida inteira.

As vezes que releio livros antigos — e encontro sempre coisas novas na sua releitura…

Quantas vezes procuramos um livro que em tempos lemos porque ele nos põe bem-dispostos, ou porque a sua história nos anima, ou porque nos faz rir, ou porque nos faz chorar.

E, já que falamos de livros, recordo que está agora a terminar a grande festa do livro que decorreu, durante todo este ano, na cidade de Port Harcourt, na Nigéria. Durante todo este ano de 2014 essa cidade, no delta do rio Níger, com cerca de um milhão de habitantes, empenhou-se de tal maneira na divulgação do livro, organizou tantas atividades, levou políticos e figuras públicas a aderirem às suas iniciativas (provocando mesmo um debate a nível nacional sobre a cultura da leitura e a sua implicação para o futuro do país) que a Unesco lhe concedeu a distinção de Capital Mundial do Livro de 2014.

Um livro é uma coisa bela. E lá escrevia o grande poeta inglês Keats: «Uma coisa bela é uma alegria para sempre.»

Por: Alice Vieira

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