Escola de perdão

Março 2016 / Bíblia-app

 

A culpa é algo que ninguém quer. Quando acontece alguma coisa má e há que apurar responsabilidades, a tendência é sempre tentar livrar-se dela e pô-la aos ombros de alguém. Rejeitam-se o seu peso e as suas consequências.

 

Hoje, Matilde trata da obra de misericórdia «perdoar as injúrias» com o seu grupo pré-adolescente. Inicia com o excerto de São Mateus em que Jesus ensina a pedir a Deus o perdão dos pecados, no pai-nosso, e em que, mais à frente, se diz: «Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, o vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tão-pouco o vosso Pai vos perdoará» (Mt 6, 12.14-15).

– É justo! – observa Filipe. – Não temos nada de estar a pedir para nós o que não damos aos outros!

– Mas perdoar não é nada fácil… – continua Cristina.

– Algumas pessoas até dizem: «Perdoo, mas não esqueço.» – acrescenta Inês.

Matilde intervém:

– Isso é o que eu chamo perdão “pastilha elástica”: dá voltas e voltas e voltas e nunca se digere a situação. De vez em quando fazem-se, inclusive, grandes balões, que podem ou não rebentar… na própria cara!

– E, afinal, toda a gente comete injustiças – verifica Inês.

– Pois – concorda Matilde. – Só que é da natureza humana arremessar a culpa para bem longe de nós. Costumo brincar com isto dizendo que certos cristãos, ao rezar a Confissão, no Acto Penitencial da Eucaristia, ao invés de rezarem: «Por minha culpa, por minha tão grande culpa», rezarão: «Por culpa dele – ou dela –, por tão grande culpa dele/dela»…

Os adolescentes riram-se, cientes, porém, da veracidade da afirmação.

Matilde completa:

– É muito comum – demasiado, diria eu –, cada um de nós querer fazer o exame de consciência dos outros, ao invés do seu. O problema é que este método de mudança de vida apenas funciona quando a pessoa põe a mão na sua consciência e não quando pretende pô-la na consciência dos demais!

– Claro! – reflete Inês. – Quando nos vamos confessar, dizemos os nossos pecados e não os dos outros…

– A confissão é o nosso pedido de perdão ao Senhor – esclarece Matilde. – E o segredo é mesmo esse: não esperar indefinidamente para pedir e receber o perdão, quer no que se refere a Deus, quer aos irmãos. Porque quanto mais se espera, mais difícil se torna. As posições dos envolvidos como que cristalizam, ou seja, ficam mais endurecidas, menos flexíveis. É usual ouvir-se dos mais idosos que a receita dos seus longos anos de matrimónio passa exatamente por nunca se deitarem de costas viradas. O dia pode ter tido conflitos, acusações ou altercações, todavia, antes da noite, tudo se resolve, se sana.

– Se pensarmos nas feridas físicas, é o mesmo – pondera Filipe. – Desinfetadas logo, curam-se depressa; se deixarmos andar, corremos o risco de a infeção se espalhar, e até podemos morrer!

– É uma infeção da alma – conclui Joel.

– Bela imagem! – aprecia Matilde.

– E se perguntássemos a São Mateus o que pensa do assunto? – desafia Cristina.

Pegam nos tablet e acedem à Bíblia_ app. O evangelista revela-se bastante atual nas suas considerações:

– Aqueles que não perdoam não conseguem ser felizes. Nem sequer são capazes de viver no presente, porque a sua preocupação é cobrar as ofensas que acham que os outros lhes fizeram.

– Mas há um ditado português que diz que «perdoar as injúrias é a mais nobre vingança» – interpõe Joel.

Mateus anui e remata:

– A família é a principal escola de perdão. É nela que se aprendem as suas bases. Não se pode viver sem perdoar, pelo menos é impossível viver bem, sobretudo em família. E o perdão não requer grandes discursos; basta um pequeno gesto de carinho, uma carícia para tudo acabar e recomeçar. Ou como diz outro dos vossos ditados: «Se não perdoarmos, destruímos a ponte sobre a qual nós mesmos temos de passar.»

Por: Maria Mendonça

Deixe uma resposta