Ensinar os ignorantes

Novembro 2016 / Valores de sempre

Ensinar é acender uma chama, ajudar o outro a procurar a luz da verdade e a deixar-se iluminar por ela.

 

Nos dias de hoje, a expressão “ensinar os ignorantes” é mal compreendida e desprezada. Primeiro, ninguém gosta de ser chamado ou considerado ignorante e, segundo, ensinar é uma tarefa cada vez mais desconsiderada, pois toda a gente se considera informada e conhecedora de tudo. Realmente há mais informação, o que não equivale, por si só, a uma melhor formação. Saber não é apenas acumulação de informação, conservação ou recuperação de dados. O verdadeiro conhecimento implica de algum modo “co-nascer”, voltar a nascer, deixar-se formar e transformar pelo conhecimento adquirido, de modo que a minha vida se torne outra, com uma nova visão da realidade. Daí que ensinar os ignorantes é uma obra de misericórdia que importa atualizar, contextualizar e praticar.

 

Ensinar é deixar uma marca

Ensinar os ignorantes é proporcionar e incentivar um clima de procura da verdade. A palavra «ensinar» significa instruir sobre, indicar, assinalar, marcar, mostrar algo a alguém…, é a capacidade de ajudar alguém a construir-se, a encontrar um caminho com metas, a orientar-se na sua sede de conhecimento para a luz.

Implícito no conceito de ensinar está o verbo “instruir”, que sugere a ideia de que o conhecimento é uma construção que se faz, por etapas, por níveis, de modo que a pessoa alicerce e construa o seu próprio projeto de vida.

Ensinar é similarmente orientar, isto é, acender uma chama, ajudar o outro a procurar a luz e a deixar-se iluminar, de modo que aprenda a situar-se na vida, a ser ele mesmo, a vir ele próprio à luz. Neste sentido, o ensino é uma espécie de maiêutica, arte de fazer vir à luz, de abrir os olhos ao cego, de ajudar o outro a ver o mundo com olhos novos, oferecendo-lhe palavras que iluminam a vida.

No dever de ensinar está também incluído o dever de aprender com aquele que se quer ensinar. Aquele que ensina reconhece a sua ignorância e, por isso, não se julga dono da verdade, mas deixa-se possuir pelo desejo de a procurar e conhecer.

 

Quem são os ignorantes

A palavra «ignorante» tem a sua raiz no latim ignorantia, cujo significado é a falta de conhecimento em particular ou da cultura em geral. Ignorância pode significar também imperfeição no conteúdo de conhecimento ou falta de validade das informações tratadas. Desta forma, o ignorante constrói um mundo falso, com noções erróneas a respeito dele mesmo e do mundo que o envolve. Esta forma de viver e de pensar incapacita-o de ver e aceitar as verdades.

Em certa medida todos somos ignorantes, incapazes de abarcar toda a verdade, mas essa consciência deve transformar-nos em buscadores da verdade e, nesse aspeto, a ignorância pode ser douta, como lhe chamam os filósofos. Ao reconhecermos a nossa própria ignorância, temos consciência de que nada sabemos e isso é um começo para superar as ilusões do falso saber, ou de um saber que, apesar de limitado, se considera ilimitado.

 

O verdadeiro mestre

Segundo a Unesco, existem no mundo 743 milhões de adultos analfabetos, cerca de 11 % da população mundial. É uma realidade demasiado dura que se torna um flagelo vergonhoso para um mundo que se diz moderno. Ensinar os ignorantes tem de significar alfabetizar tantas pessoas, que nunca foram à escola ou a abandonaram precocemente… Para nós, cristãos, ensinar os ignorantes é também evangelizar os que desconhecem Cristo, o verdadeiro mestre, na certeza de que a fé oferece uma nova visão da vida, que torna possível ao cristão ver tudo de novo e, a partir daí, reinventar-se e renovar todas as coisas!

 

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Por: Abel Dias

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