É tudo uma questão de likes

Novembro 2018 / Mala da Alice

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Estamos rodeados de tecnologia e já nem saberíamos viver sem ela. E ainda bem que tudo está facilitado e que este mundo nos põe outros mundos nas mãos à distância de um clique.

Quando era nova e estava a começar a trabalhar no jornalismo, o que nós transpirávamos para saber notícias… Corríamos de um lado para o outro, e conseguir uma cacha (notícia em primeira mão) era obra!

Hoje, abrimos o computador, ligamos a Internet, e tudo vem ter connosco.

Mas, ao mesmo tempo que contactamos com toda a gente, vamos estando cada vez mais afastados de toda a gente.

Aqui há tempos, o padre Anselmo Borges chamava a atenção para isso, num artigo intitulado «Likai-vos uns aos outros».

A gente enche as nossas páginas de Facebook de likes e mais likes, todo o  mundo “lika” de nós e nós “likamos” de todo o mundo. Alguém teve um filho? A gente “lika”. Alguém morreu? A gente “lika”. Alguém escreve «está um lindo dia», a gente “lika”. Alguém perdeu um cão? A gente “lika”. Não fazemos mais nada, mas carregamos e “likamos” até mais não poder.

Mas as pessoas precisam de pessoas. Da voz das pessoas. Do sorriso das pessoas. Da atenção das pessoas. Do abraço das pessoas. E, para isso, cada vez há menos tempo.

Amar as pessoas e ajudá-las, confortavelmente sentados em nossas casas, diante do Facebook e carregando nos like – é fácil. Mas ir mesmo ao encontro delas? Telefonar e perguntar se é preciso alguma coisa?

Falava o padre Anselmo Borges de uma paróquia em Paris onde há anos tinha trabalhado, que incluía nas suas instalações uma salle d’accueil (sala de acolhimento) onde voluntários (médicos, psicólogos, padres, pais de família, etc.) davam horas do seu tempo todos os dias da semana para atender os que, na esmagadora maioria dos casos, só precisavam de alguém com quem falar. Nesse artigo ele recorda um homem que entrou e lhe pegou nas mãos e falou, falou, falou. No fim, levantou-se e à saída disse-lhe: «Obrigado, nem imagina o bem que me fez.» E o padre Anselmo Borges não tinha dito nem uma palavra. Mas tinha ali estado. Era uma pessoa.

Neste seu artigo, ele conta casos terríveis de solidão – mas que, aparentemente, não o deixavam transparecer. Um velho a viver longe de família e de amigos, com mais de 3544 amigos no Facebook, e que de repente é encontrado morto em casa, por não poder suportar a solidão.

O mundo virtual tende cada vez mais a tornar-se o refúgio de gente só – mas não chega.

Lembro-me sempre de um senhor que um dia me abordou na rua, não me conhecia de parte nenhuma nem eu o conhecia a ele, e que só pedia: «Posso mostrar-lhe as fotografias dos meus netos?» E ali ficámos no meio da rua, ele a tirar retratos e mais retratos dos bolsos e a falar, a falar. E eu só a olhar e a ouvir. Lembro-me que no fim rematou: «O meu filho chega sempre muito tarde a casa, eu tenho um computador que ele me deixa ligado, mas eu não sei falar com máquinas. Obrigado por me ter ouvido.»

E seguiu o seu caminho.

Por isso é terrível quando as máquinas querem substituir as pessoas. Por isso é terrível ver famílias inteiras, todas de smartphones na mão, a clicarem feitos doidos.

Há uns tempos cheguei a uma escola perto de Paris, a professora foi buscar-me ao aeroporto, metemo-nos no carro e a primeira coisa que ela fez foi atirar com uma maquineta para as mãos do filho, ainda bebé, exclamando «ao menos assim vamos sossegadas e ele vai entretido».

Lembrei-me disto tudo ao ler o artigo do padre Anselmo Borges.

Cada vez se “lika” mais, cada vez se abraça menos.

Por: Alice Vieira

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