E chegou o Natal…

Dezembro 2017 / Mala da Alice

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Que me desculpem algumas pessoas, mas Natal não é «quando um homem quiser». Natal é em dezembro, nos dias 24 e 25. Ou poderemos começar a pensar nele a partir do Advento, pronto (é nessa altura que aproveito para armar todos os meus presépios…). Com esse slogan, já ligeiramente estafado, diga-se (vem dos anos 1970, de uma peça infantil chamada Os Operários de Natal), acabamos por desvirtuar a data, e começar a celebrá-la ainda mal acabámos de dar o último mergulho na praia.

António Gedeão tem um poema muito conhecido, chamado «Dia de Natal», que era bom que todos lessem. Porque retrata muito bem o que muita gente, influenciada por esta terrível sociedade de consumo, pensa que é o Natal.

Escreve Gedeão, logo no início:

«Natal é dia de ser bom/ de passar a mão pelo rosto das crianças».

E a gente pensa que ele vai entrar por um poema tranquilo, de paz e amor… – mas não.

Logo percebemos que aquilo de que ele fala é deste alucinado tempo de frases feitas («tempo de pensar nos outros, coitadinhos»), de gente carregada de compras («como se o Céu olhasse para nós/ e nos cobrisse de bênçãos e favores…»), de correrias  («torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas/onde toda a gente se acotovela…»), de publicidade a invadir tudo («Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino nasceu?/ Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético!…»), de jingle bells e silent nights a inundarem ruas, rádios, elevadores, lojas («e mal se extinguem os clamores plangentes/ a voz do locutor/ anuncia o melhor dos detergentes…»)…

(O poema é muito grande e por isso não dá para o deixar aqui todo. Mas basta ir à Internet – o que seríamos nós sem ela – e rapidamente o encontramos.)

Para muita gente, o Natal não passa daquela chatice de ter de comprar prendas para a família toda e, por isso, é preciso fazer listas, muitas listas, para que não falte ninguém – e na maior parte dos casos nada daquilo é importante, nada daquilo foi pensado com o coração, o que é preciso é comprar, comprar, não importa o quê, e a pessoa, se não gostar, troca e pronto, está o caso arrumado. Por isso convém despachar o trabalho. Por isso, assim que acaba o verão, amontoa-se nas lojas tudo aquilo que possa encher o olho do possível comprador – e sempre, de setembro a dezembro, com cânticos e Pais Natais carregados de luzes em volta.

Não, Natal não é isso. Seria bom que este ano parássemos todos um bocadinho para pensar no que é realmente importante. E no que realmente dá prazer ao nosso amigo.

Há muitos anos que eu e muitas das minhas amigas temos o hábito de nos dar, como prenda, alguma coisa que nos pertença.

A Luísa, há dois anos, deu-me uma pequena bandeja que era onde a avó dela lhe levava o copo de leite antes de ela adormecer, quando estava doente. Claro que nunca pode ser uma bandeja como as outras, e está sempre em lugar de destaque nas minhas prateleiras.

Tenho a certeza de que todos temos objetos destes. Natal é partilhá-los com os nossos amigos.

Por: Alice Vieira

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