Chegou a hora das mulheres

Julho-Agosto 2017 / Campeões

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Há dez anos, Andreia tinha 10 anos e sofreu ao saber que tinha jogo de infantis marcado para pouco antes da hora a que se iria realizar, a um sábado, a Comunhão Solene para a qual estava também convocada. Única menina da equipa da Praia do Furadouro, próximo de Ovar (Aveiro), insistiu muito para jogar pelo menos a primeira parte. Depois, como sempre, ficou tão absorvida pelo jogo que até se esqueceu do compromisso com Deus. «Não queria sair», contou o seu primeiro técnico ao semanário Expresso. «Chamava-a, chamava-a e ela não me ouvia. Tive de pedir ao árbitro para a parar, para ela ter ainda tempo de tomar banho, vestir-se e seguir para a igreja», recordou Augusto Barbas.

 

Em outubro, em Cluj, Andreia Norton (na foto, em cima) tornou-se heroína da Seleção ao fazer, com a determinação revelada desde miúda, o golo da igualdade (1-1) com a Roménia no jogo que pôs Portugal pela primeira vez numa competição internacional de futebol feminino.

Quando, no dia 19, se estrear no Europeu (que começa a 16), as hipóteses de Portugal ir à final em Enschede (Holanda) a 6 de agosto irão reduzir-se. A Espanha é favorita no duelo ibérico e temos desvantagem para as outras equipas do Grupo D. A Inglaterra é 4.a do ranking mundial e a Escócia é 21.a Portugal subiu ao… 38.0 lugar. Aliás, a nossa Seleção (23.a da Europa) tem o pior ranking no Europeu, a grande distância da Rússia (15.a  continental), que nos antecede.

Perante a realidade, não podemos esperar milagres nem comparar com a Seleção masculina, apesar de também termos uma CN7 (a médio Cláudia Neto joga com a camisola 7, como Cristiano Ronaldo) que faz hat-tricks. Nas estatísticas individuais (do apuramento para este Europeu), apenas Cláudia Neto aparece, liderando a lista de remates… para fora (18).

 

Comparações com os futebolistas homens serão injustas. A Seleção feminina começou com 60 anos de atraso. Os masculinos estrearam-se em 1921 e os femininos só em 1981 (0-0 com a França, campeã mundial).

A presença no Holanda 2017 deve ser vista como a celebração de uma grande evolução. A Seleção, suspensa dois anos após a estreia, só regressou em 1993, também com a França, mas com derrota (0-1). O interregno atrasou Portugal ainda mais. Estávamos estagnados nas duas centenas de jogadoras federadas. Só em 2013/14 se ultrapassou as 2000 e as atuais 3200 ainda são poucas. A Suécia, com menos de 10 milhões de habitantes, tem 87 mil federadas.

Entretanto, em 1987, foi criada uma competição nacional de clubes. O Boavista dominou até 1994/95. Mas a expansão só se deu em 2015, quando a FPF criou a Liga Allianz, convidando os clubes da liga masculina. Ao Boavista juntaram-se Sporting de Braga, Estoril, Belenenses e Sporting, que acaba de se sagrar campeão. Apareceram as profissionais, apesar de já haver várias portuguesas no estrangeiro.

Por: Audácia

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