Os livros devem andar connosco em todas as alturas.

 

Eu sei que nesta altura já devemos estar todos a pensar em férias (quem sabe mesmo se alguns não estarão já a gozá-las…),  mas eu ainda me apetece falar de livros. Até porque os livros devem andar connosco em todas as alturas, sobretudo nas férias, em que podemos ler outros para lá dos que obrigatoriamente a escola nos põe no colo.

Lembro-me sempre das enormes listas que eu fazia de livros que queria levar para os três lugares para onde as minhas velhas tias se enfiavam comigo naquele tempo em que se tinha três longos meses de férias: a praia, o casarão da quinta e as termas. Lugares onde (com exceção da praia, evidentemente) eu teria sido muito mais infeliz se não fosse o saco onde tinha metido todos os livros que me iam fazer companhia. (Não se esqueçam que nesse tempo nem televisão havia!)

Mas hoje quero falar de livros mas de um tempo muito, mas muito mais antigo. Tão antigo que às vezes até nos custa a imaginar como então se vivia.

Hoje falo do ano 859.

Porque foi nesse ano que, em Fez, nasceu a biblioteca Khizanat al-Qarawiyyin, que a Unesco considera como a mais antiga instituição cultural do mundo. E se isso já é um facto que nos faz abrir a boca de espanto, ainda mais a abriremos quando soubermos que foi criada por uma mulher.

Fatima Al-Fihiri era filha de um rico comerciante de Fez. Com a morte quase simultânea do pai, do irmão e do marido, viu-se na posse de toda a fortuna paterna. Muito devota, com uma esmerada educação e muito apegada às suas raízes, Fatima decidiu então dedicar toda a sua vida e toda a sua fortuna em benefício da comunidade. E assim criou uma mesquita, e uma universidade com uma biblioteca – tudo no mesmo lugar. Diz-se que ela própria acompanhou de perto a construção. E, em 859, tudo estava pronto a funcionar.

Ali, mesmo os não muçulmanos eram bem aceites, e sabe-se que, por exemplo, Gerber d’Auvergne – que viria a ser o Papa Silvestre II – e o físico judeu Maimónides foram dois dos seus mais ilustres frequentadores.

No século xiv tinha mais de oito mil alunos.

Mas o tempo faz as suas razias: os ventos, a humidade, o calor, com o passar dos séculos deixam marcas profundas.

E foi quando a arquiteta marroquina Aziza Chaouni, professora na Universidade de Toronto, foi chamada para reconstruir a biblioteca. Segundo as suas próprias palavras, ficou «altamente chocada» ao olhar para o estado de degradação em que tudo se encontrava. Preciosos manuscritos do século vii em risco de desaparecerem com a humidade, buracos no teto, azulejos quebrados.

«Nunca se sabia o que poderia estar atrás de uma porta», diz Aziza, «raspava-se uma parede e encontrava-se uma pintura, retirávamos a pintura e encontrávamos outra porta.» E em 2012 deitou mãos à obra.

Tendo sempre na ideia que não queria – para usar as suas próprias palavras – «fazer um cadáver embalsamado», sempre soube que teria de «restaurar o passado mas olhando para o futuro, para os alunos e os investigadores que a iriam utilizar».

Em maio de 2016, a biblioteca Khizanat al-Qarawiyyin reabriu ao público. Com todos os seus tesouros – mais de quatro mil manuscritos, um exemplar do Alcorão do século ix e uma das mais antigas coleções de hadiths (corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida de Maomé) – agora bem protegidos e à disposição de quem quiser consultá-los.

E com tudo o que uma biblioteca necessita: salas de leitura, salas de conferências, laboratório de restauro de manuscritos, estantes com coleções de livros raros.

Ah, e evidentemente, uma sala onde todos podem descansar e beber café…

Por: Alice Vieira

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