As avós e os livros

Março 2018 / Mala da Alice

 

Há já alguns anos, estive na Argentina, convidada para um encontro de literatura com a participação de vários escritores, organizado por Mempo Giardinelli.

Numa pequena cidade, chamada Resistência, capital da província do Chaco.

Mempo Giardinelli é escritor premiadíssimo em todo o globo, com livros traduzidos em todo o mundo – mas decidiu fazer ali, naquela cidade minúscula e longe de tudo, a sua vida. Ali, na cidade onde nasceu.

Quem conhece a Argentina sabe que a região do Chaco tem enormes problemas e carências e que por lá a vida não é fácil. Buenos Aires fica muito longe, e o tango nem sempre é a música que ali se ouve.

Mas Mempo Giardinelli decidiu fazer ali uma fundação, que tem o seu nome, e que torna tudo diferente. Uma fundação que, no meio de todas as dificuldades, se interessa pela cultura, pela divulgação do livro, sobretudo entre as camadas mais jovens. Por isso todos os anos promove encontros com autores que vêm de todo o mundo, que ali fazem as suas conferências para os adultos, os seus ateliês e debates, mas também têm tempo para os mais novos, que acorrem em massa.

Porque, como disse Mempo no último desses encontros, «só a leitura pode salvar este país; ler e dar a ler é o único caminho para recuperar a capacidade do pensamento e a sensibilidade de um povo».

Contudo, entre as muitas atividades da fundação, uma das mais importantes é, certamente, a que mobiliza as avós para levarem a leitura até aos mais novos: as  Abuelas Cuentacuentos, assim se chama o grupo, não são – e fazem muita questão de o sublinhar – simples contadoras de histórias: elas são leitoras voluntárias que transmitem o gosto pela leitura. Elas leem aos mais novos o que de melhor existe na literatura infantil de todo o mundo.

De resto, para serem admitidas no grupo, elas têm de ler muito, de saber selecionar as leituras, de saber escolher o melhor lugar para  serem ouvidas – e de não desistirem.

Nem sempre as crianças são fáceis. Mas o grupo de avós acompanha-as ao longo dos anos, dando-lhes leitura de qualidade uma vez por semana. «Vontade, persistência e vocação» dizem elas que são os ingredientes necessários para aquele trabalho.

Além disso, há também a grande aproximação entre as gerações, o que torna a vida mais fácil.

Em vez de ficarem em casa, as avós têm uma ocupação.

E vez de se queixarem das agruras da vida, as avós arregaçam as mangas, afinam a garganta – e ei-las que criam uma vida própria.

No fim do ano, há prémios para as avós que mais trabalharam e mais se distinguiram. Eu estava lá nessa altura e pude ver como tudo era uma grande festa coletiva.

E eu fico a pensar como seria muito bom se, pelas terras pequenas do nosso país, também as avós se organizassem e levassem os livros e as histórias às suas crianças. À falta de uma fundação, podiam mobilizar-se em torno de uma biblioteca, de uma sociedade de recreio, de uma junta de freguesia, de qualquer associação local que, de algum modo, as pudesse ajudar e encaminhar.

E acreditem: não há tecnologia nenhuma capaz de substituir o prazer de ouvir a voz de uma avó a ler uma história.

Por: Alice Vieira

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