Aprender a misericórdia

Fevereiro 2015 / Bíblia-app

A misericórdia é daquelas coisas que toda a gente quer que tenham para consigo, mas que nem sempre é fácil de praticar com os outros. Não há quem não queira ser tratado com bondade, compaixão, perdão…

Matilde preocupa-se não somente com a catequização dos seus alunos, mas também com a inserção destes na realidade concreta, onde os valores ensinados possam ser materializados.

Neste encontro catequético, pergunta-lhes:

– Alguém sabe dizer-me uma das últimas atitudes de misericórdia do Papa Francisco?

– Hum… – pensa Cristina. – Misericórdia… Isso é ter atenção aos outros, não é?

– Essencialmente, sim – responde Matilde. – Mas em todos os aspetos da pessoa e da sua vida, respeitando ambas.

– Já sei! – avança Inês. – O papa mandou instalar na Praça de S. Pedro balneários para os sem-abrigo de Roma. Vi nas notícias.

– Exatamente – aplaude Matilde. – O Papa Francisco está sempre atento aos mais pobres e necessitados, não apenas dos bens mais básicos, como de um afeto que lhes devolva a dignidade. É isso a misericórdia: ter sempre em conta a dignidade do ser humano, do irmão.

– Mas porque é que decidiu fazer os balneários, se as pessoas voltam para a rua e vão sujar-se todas, outra vez? – indaga Joel.

– Enquanto estiverem lá, podem sempre pensar que alguém se preocupou com elas, que não estão sozinhas no mundo – remata Filipe. – Ou não será?

Matilde gosta das reflexões profundas dos seus jovens e acrescenta:

– Ter misericórdia não é ter “peninha” dos outros, aquele “coitadinho!” que se costuma dizer com muito pesar, mas sem consequências nenhumas. Hoje, como no tempo bíblico, a misericórdia faz as pessoas serem valorizadas, pelos outros e por si mesmas. O Livro do Génesis fala-nos de Abrão – que viria a tornar-se Abraão –, da sua mulher Sarai – que se converteu em Sara – e da sua escrava, Agar. Como Sara não podia ter filhos, propôs ao marido que a escrava lhe desse um por ela. No entanto, tal como Deus prometera – mas ela já não acreditava –, Sara ficou grávida e, desde então, começou a tratar Agar com desprezo. Já não via a pessoa, unicamente a escrava. Nem sequer a tratava pelo nome, e quis pô-la fora de casa. Agar fugiu para o deserto. Aí, Deus não se esqueceu dela e falou-lhe nestes termos: «Vais dar à luz um filho; hás de chamar-lhe Ismael, porque Deus prestou atenção ao teu sofrimento» (Gn 16, 10-11). Agar ainda voltou a casa de Abraão, mas foi novamente posta na rua. Perdeu-se no deserto e acabou-se-lhe a água que levava. Então, resolveu deixar o menino debaixo de um arbusto e sentou-se a certa distância para não o ver morrer. Sentada no chão, chorava em grande pranto (Gn 21, 14-16). Mas, uma vez mais, a misericórdia de Deus. «Deus ouviu o menino a chorar e o anjo do Senhor chamou do Céu por Agar e disse-lhe: “O que tens, Agar? Não tenhas medo, porque Deus ouviu a voz do menino, aí onde ele está”» (Gn 21, 17)»

São muitas as mensagens que estes capítulos transmitem. Mas o melhor é pegarem nos vossos tablets e tentarem descobrir quais são.

Joel pergunta a Agar:

– Porque não te impuseste, não fizeste valer os teus direitos?

Agar retrucou, na Bíblia_app:

– Respeitei a decisão de Abraão, meu patrão. Afinal, eles eram casados e já de idade avançada…

– Não tiveste vontade de te vingar de tudo o que passaste por causa de Sara? – questiona Inês, algo revoltada.

Agar devolve:

– Deus foi misericordioso para comigo, e a base da misericórdia é, precisamente, tentar resolver as coisas sem conflitos. O que me interessava era salvar o meu filho, não ficar a remoer o que quer que fosse…

– Mas não te doeu seres humilhada por Sara, quase como se não fosses um ser humano como ela? – quer saber Cristina.

– Sim, claro – responde Agar. – Mas embora ela não me tratasse pelo nome, Deus tratou. Ele nunca se esqueceu de mim nem de Ismael, onde nós estávamos. Ela não me reconheceu como uma igual, todavia Deus reconheceu.

– O que fizeste com a raiva que deves ter sentido? – conclui Filipe.

Agar elucidou-o prontamente:

– Pensei simplesmente que, no fim de contas, também ela fora escrava, emigrante no Egito. Esforcei-me por compreendê-la e aos seus motivos. E tudo se tornou mais leve.

Por: Maria Mendonça

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