Adolescente do século xxi: Individualista e dependente

Março 2015 / Destaque

O adolescente do século XXI parece estar mais acomodado e menos curioso, mais interessado no seu bem pessoal (mais individualista), porém, menos autónomo (menos independente). Todavia, não deixou de ser criativo e de ter interesse pela transformação da sociedade

 

As ciências sociais que estudam a personalidade e o estilo de vida das pessoas têm traçado o perfil das gerações mais jovens da atualidade. Conectados pelas novas tecnologias à Internet, recebem e trocam mensagens, fotos e informação a cada instante. Contudo, a sua primeira preocupação é a aparência: fotografam-se a si mesmos várias vezes por dia, enviam esses autorretratos a amigos e colegas e não largam as redes sociais à espera dos comentários.

Os adolescentes de hoje privilegiam a cultura da imagem, do descanso e do lazer. Gostam de ser elogiados (sobretudo de ser invejados) e de dar nas vistas quando ridicularizam alguém; gostam de se divertir, mas a competição é, em primeiro lugar, consigo mesmos. Este é o principal efeito dos jogos de consola. E, quando inseridos numa competição em equipa, são capazes de trabalhar para a equipa, mas a euforia ou a desilusão têm sempre uma dimensão muito pessoal.

 

O adolescente e a fé

No âmbito da fé, a religiosidade dos adolescentes atuais tem quatro características, reflete José Pereira Coutinho, doutor em Sociologia, que tem estudado o fenómeno religioso entre os jovens portugueses. Primeira: caracteriza-se pela primazia da felicidade individual e terrena, «querem ser felizes aqui e agora, não numa vida após a morte», diz Coutinho. Segunda: «Querem julgar e escolher livremente entre os produtos religiosos mais adequados para si», ou seja, podem misturar Cristianismo com outras tradições religiosas e culturais ou trocar o Cristianismo por uma daquelas. Terceiro: «Deixaram de acreditar no Cristianismo como única verdade religiosa, uma vez que a religião se tornou escolha privada e as religiões têm, para eles, igual importância.» Quarto: «A verdade não vem da doutrina, nem sequer do ensino transmitido pela tradição, mas da utilidade que a religião fornece às vidas concretas.» E avança com um cenário curioso: não serão as experiências de concertos ou de noite, com rituais particulares, guiadas por deuses temporais (ídolos musicais) e sacerdotes noturnos (DJ), liturgias que se adequam ao espírito juvenil?

 

O adolescente e o seu mundo

Os mesmos adolescentes de hoje são muito curiosos com o mundo à sua volta. Vibram sempre que são chamados a fazer experiências, seja nas áreas da ciência, da música, do voluntariado, por exemplo. E, talvez por começarem a conviver desde bebés nas creches, são muito mais interventivos do que as gerações precedentes. É frequente defenderem os seus pontos de vista com grande entusiasmo, convicção e frontalidade.

E estes mesmos adolescentes são dependentes dos pais nas dimensões afetiva e material. Já não estão preocupados com sair da casa dos pais e tornar-se independentes. Querem é ter o seu espaço, ser felizes, viver os afetos com pragmatismo: ter dinheiro suficiente, amigos e namorado(a). Eles são mais individualistas, porque se tornaram agentes do seu próprio destino. São capazes de tomar decisões radicais sem se condicionar pela opinião da família, escola, partido político, religião, mas por eles mesmos e, porventura, ajudados pela opinião de um amigo.

E se a vocação dos adolescentes é fazer germinar sementes de mudança na sociedade, as gerações atuais mantêm o interesse em participar na vida do país, em aderir a projetos culturais ou sociais. Todavia, fazem-no com o caráter passageiro de tudo o resto. Aderem a causas mais na moda. Mas praticam-no com muita criatividade.

Em geral, o adolescente do século xxi quer liberdade. A sua responsabilidade e tarefa será convertê-la em ações, porque liberdade que não se converta em ação não tem consequências no mundo.

 

Verdade que o egoísmo esconde

Desejar o mal a outra pessoa, porque tem algo que não temos, não nos traz esse bem.

Qualquer pessoa é mais valiosa do que todos os seus bens.

É mais saudável ocupar-se dos outros do que de si mesmo.

A pessoa enriquece na medida em que contribui para o enriquecimento dos outros.

O melhor caminho para a afirmação do valor pessoal é o serviço aos outros.

Ninguém tem o mesmo êxito dos outros sem esforço, nem imitando-os, mas pela superação de si mesmo.

A prosperidade alcançada por outros não pode ser vista como algo que nos prejudica.

Não há vínculos afetivos quando não se é solidário com as pessoas.

O egocentrismo cria dependência dos elogios, confunde pontos de vista diferentes com rejeição e não tolera frustrações.

Por: Jorge Ferreira

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