Como preservar e viver o valor do acolhimento num mundo que parece cada vez mais egoísta, individualista e violento e onde a desconfiança parece imperar?
Dois acontecimentos levaram-me a refletir sobre o valor e a necessidade do acolhimento: a estada em Taizé, uma comunidade ecuménica perita em acolhimento, e uma sessão do sínodo diocesano de Viseu que refletiu sobre a necessidade de acolhermos. Acolher é um desafio para as sociedades contemporâneas, marcadas e afetadas por sinais alarmantes e crescentes de isolamento, xenofobia e indiferença que afetam as relações entre os povos.
Acolher é…
O termo «acolher», do latim accolligere, significa «receber», «atender», «dar crédito a», «dar ouvidos a», «admitir», «aceitar», «tomar em consideração»… Acolher é colocar o outro mais perto de mim. É receber a pessoa tal qual ela é e se apresenta. O acolhimento está mais no ouvir e menos no falar, mais no receber e menos no fazer. Acolher é, antes de mais, uma comunicação entre pessoas que, progressivamente, vão entrando em sintonia, dialogando, expressando-se em gestos, enfim, estabelecendo elos de união. Quando acolhemos ou recebemos alguém na nossa casa, a primeira atitude prática que tomamos é a de abrirmos a porta e deixarmos entrar. É deixarmos entrar a pessoa inteira, nenhuma parte sua fica do lado de fora.
Dificuldades com o acolhimento
Temos muitas dificuldades em acolher verdadeiramente os outros. As correrias e os ruídos do mundo contribuem para isso e relegam, muitas vezes, o acolhimento para as coisas que fazemos rara ou ocasionalmente. Com este comportamento marginalizamos e excluímos muitas pessoas, abrindo espaços para a ansiedade, a revolta, o enfraquecimento da personalidade e do caráter, dando lugar, muitas vezes, às depressões. Um aperto de mão, um abraço, um beijo, um sorriso, uma palavra amiga, coisas tão simples e ao alcance de todos, quando acontecem, celebram o mais sagrado do ser humano: a capacidade de acolher.
Maria, modelo de acolhimento
Como nos dizia João Paulo II: «Maria, ao dar consentimento à Palavra divina que Nela Se fez carne, torna-se o modelo de acolhimento da graça por parte da criatura humana.» Maria soube acolher em si a Palavra de Deus e dá-la ao mundo, na pessoa do seu Filho. Ao visitar a sua prima Isabel, Maria manifesta a capacidade de acolher as preocupações da sua prima, grávida em idade já avançada. O Anjo, durante a anunciação, falou-lhe da gravidez da sua prima Isabel. Refletindo sobre esta palavra, Maria entendeu que ela deveria acolher e assistir a sua prima durante o tempo do parto. Maria é a imagem do acolhimento, pois sabe acolher e guardar com amor a Palavra de Deus, transformando-a em serviço de caridade.
Jesus e o acolhimento
A atitude permanente de Jesus foi uma prática de inclusão e não de exclusão, uma prática de acolhimento. O seu acolhimento misericordioso estendeu-se a todo o tipo de pessoas, o que lhe valeu até incompreensões e antagonismos por parte daqueles que se surpreenderam e escandalizaram com o seu testemunho. Há três trechos do Evangelho que falam do acolhimento de Jesus: o encontro com Nicodemos, a conversa com a mulher adúltera e o jantar em casa de Zaqueu.
Jesus acolheu sempre, à noite (Nicodemos), ao fim da tarde (Zaqueu) ou durante o dia (mulher adúltera). Jesus acolheu quem o procurou (casos de Nicodemos ou da mulher) mas também procura quem quer acolher (com Zaqueu, Jesus faz-se acolhido para depois acolher). Jesus acolheu pessoas fruto de algo previamente combinado (casos de Zaqueu ou Nicodemos) ou na sequência de algo imprevisto, de surpresa (caso da mulher). Jesus revela um espírito de inclusão e abertura a todo o tipo de pessoas (diferentes estratos sociais, diferentes ligações à religião, diferentes participações na cultura, diferentes géneros), revela uma total disponibilidade (não há quaisquer limites: de tempo, de lugar), revela, também, um interesse imenso pelo interlocutor (escutando-o, pondo-se ao seu nível) e, finalmente, mostra sempre um acolhimento compassivo e compreensivo.
O acolhimento é uma atitude
Antes de ser uma tarefa, o acolhimento é uma atitude, que, sendo cultivada dia a dia, se torna um hábito. Quem acolhe exerce um dos maiores atos de caridade e enobrece o amor. Quem acolhe dignifica a pessoa e acredita nas infinitas potencialidades inerentes à condição humana. Acolher é como restaurar no mais íntimo da pessoa acolhida a confiança e a dignidade. Agindo assim, apercebemo-nos, também, que, à medida que acolhemos, também estamos a ser acolhidos. É uma relação recíproca que só acontece à medida que nos sentimos responsáveis uns pelos outros. Só um verdadeiro acolhimento permitirá formar uma sociedade mais unida e coesa e consequentemente mais feliz.
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