A propósito de crises…

Novembro 2014 / Mala da Alice

A minha neta mais velha estuda numa universidade da Escócia. E, ao aproximar-se o final do ano letivo, todos os alunos receberam uma circular da universidade: «Fazer voluntariado não é obrigatório, mas gostávamos que soubessem das vantagens que isso pode ter para a vossa vida.»

 

Há um provérbio chinês, que todos nós devíamos ter à cabeceira, que diz: «Se tem remédio, porque te queixas? Se não tem remédio, porque te queixas?»

Nós vivemos num país onde se devem ouvir mais queixas por centímetro quadrado.

As pessoas queixam-se nos autocarros, no metro, nos cafés, nos restaurantes, nas lojas, nas filas do supermercado, nas farmácias, no aeroporto, ao telemóvel pelas ruas.

Antes de esta crise atacar com força, as queixas tinham quase sempre que ver com doenças. Os autocarros, sobretudo, eram assim uma espécie de grande sala de espera das urgências, onde toda a gente afirmava estar sempre muito mais doente do que o vizinho de trás ou o vizinho da frente, terminando sempre com a frase fatal «eu é que me sinto».

Agora o leque das queixas é, infelizmente, muito mais vasto.

Eu não quero dizer que não haja motivo para as queixas — que os há —, nem que as pessoas não tenham razão em manifestar-se contra todas as injustiças que vão acontecendo —, porque têm.

Mas, além disso, acho que nos falta um pouco a capacidade de arregaçar as mangas e ir à luta. E de encarar até certas dificuldades que nos aparecem pela frente como novos desafios para novas maneiras de viver.

Já há dois anos, num dos encontros que regularmente orienta no Mosteiro das Monjas Dominicanas em Lisboa, o padre Tolentino Mendonça nos dizia que as crises podem ser grandes mestres. «Não se trata de achar que a crise é simplesmente uma desgraça que nos aconteceu – “vejam lá o que me aconteceu agora!” —, mas olhar para a crise como um caminho e não como o fim da estrada», dizia ele. E acrescentava: «Às vezes, a crise é a possibilidade que a vida me dá, a possibilidade que Deus me dá de perceber que eu existo, porque às vezes vivemos como se não tivéssemos alma, ou como se não tivéssemos passado ou como se não tivéssemos futuro. A crise é a possibilidade de refazer, de renascer.»

Muitas vezes lastimamo-nos porque sempre tínhamos desejado viver e trabalhar em Portugal e não há remédio senão ir para fora. Claro que é difícil quebrar laços familiares para ir um pouco à aventura. Mas quem sabe o que nos espera? Que desafios? Que novas oportunidades? E fazer voluntariado não poderá ser também uma maneira de darmos a volta à crise?

A minha neta mais velha estuda numa universidade da Escócia.

E, ao aproximar-se o final do ano letivo, todos os alunos receberam uma circular da universidade em que se dizia mais ou menos isto: fazer voluntariado não é obrigatório, mas gostávamos que soubessem das vantagens que isso pode ter para a vossa vida, ajudando-os mais tarde a mais facilmente serem aceites no mercado de trabalho.

E enumeravam-se as razões que levavam a isso: quem faz voluntariado mostra que tem facilidade em se adaptar a novas realidades, em resolver problemas, em contactar com pessoas e culturas diferentes, em ter iniciativa própria, em estabelecer ligações com os outros, a não ter medo de mudanças, etc. — para lá de aumentar a sua autoestima e de ser um ótimo combate a possíveis depressões.

Como requisitos para o voluntariado, o documento apontava: espírito aberto, pensamento positivo, vontade de fazer o que for necessário, e uma grande compaixão pelos outros.

E foi assim que a minha neta foi parar a Timor, durante os meses de férias. Trabalhou com crianças, e até lhe pediram que desse umas aulas na universidade, de Psicologia da Linguagem (que é a área dela).

Apesar de muitas vezes ter vontade de interferir (qual é a avó ou a mãe que não tem?) — nunca me meti rigorosamente em nada. Mas um dia, ao saber que um amigo meu estava em Díli, não resisti a mandar-lhe uma mensagem de correio eletrónico, perguntando se ela se estava a adaptar bem.

E ele respondeu:

«A única coisa que te sei dizer é que ela anda sempre de sorriso nos lábios e rodeada de crianças.»

Não precisei de saber mais nada.

Neste momento, regressada já ao seu novo ano universitário, manda-nos a notícia de que conseguiu ser aceite como guia do Hunterian Museum, um dos mais antigos museus da Escócia.

E, tal como ela, muitos outros andam por esse mundo, em vidas e experiências que nunca pensaram ser as suas.

Mas é preciso saber entender os desafios.

E voltando mais uma vez ao padre Tolentino Mendonça, nada melhor para terminar este texto do que um belíssimo poema do seu livro A Papoila e o Monge:

«Não é raro que um bem

nos seja confiado

na hora que temos por errada.»

(E quantas vezes não é essa, afinal, a hora mais certa de todas?)

Por: Alice Vieira

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