A família vai estar em análise

Outubro 2014 / Destaque

De 5 a 19 de outubro, bispos de todo o mundo reúnem-se no Vaticano para refletir sobre a família no mundo atual. Que poderão eles dizer às gerações mais novas que aspiram casar? Terá o conceito «família cristã» valor para vencer a crise das famílias?

A imagem que a sociedade atual tem da família e que apresenta às gerações mais novas é a de uma instituição em crise. Há atributos do conceito cristão de família em que muitos já não acreditam. Bastantes acham redutor falar de família como a união entre um homem e uma mulher. Outros não entendem a dupla finalidade do matrimónio: a de viver um amor unitivo – e único – a dois, e também um amor procriativo, através dos filhos e das ações pelo progresso da sociedade, no trabalho, na cultura, na religião. Em terceiro lugar, poucos têm realmente a experiência da fé para entender o matrimónio como algo querido e abençoado por Deus, ficando-se pelo elemento festivo e tradicional do evento: o vestido da noiva, o banquete, etc.

Assiste-se, igualmente, à perda dos valores do matrimónio. Perante os crimes horrendos entre familiares – abuso sexual, homicídio, roubo, abandono, maus tratos… – é normal os mais novos interrogarem-se acerca dos verdadeiros vínculos afetivos, aqueles que estão enraizados nos laços de sangue. E não é de estranhar que, tantas vezes, se comente entre colegas o desejo de que a família fosse outra ou que fosse diferente.

Outro valor em crise é o da fidelidade e da dedicação na saúde e na doença, nas alegrias e nas tristezas, até que a morte separe, como foi prometido seja perante a autoridade civil, na conservatória, seja na igreja. É que aumenta o número de divórcios e a violência doméstica prolifera.

Ou, ainda, verifica-se que a maior parte dos pais se demite da sua função educativa, em casa, na escola e na igreja. Então, periga o valor que é fundamental na família, que é o de ser escola de humanidade, no sentido em que nela se aprendem e se desenvolvem todos os outros valores que se viverão ao longo da vida.

É importante ouvir os mais novos

Os adolescentes vivem anos maravilhosos de descoberta das suas capacidades de socialização. São anos em que aprendem a ligar-se ao mundo e vão percebendo o papel que têm nele. A adolescência é uma idade de ensaios.

Os adolescentes começam já a ser agentes ativos, fator de evolução social, contributo que aperfeiçoarão com a passagem à juventude e à idade adulta. Ao depararem-se com determinada realidade, dão-lhe seguimento ou reorientam-na, consoante gostam ou não dela.

Os dias de hoje são de uma crise que afeta o presente e o futuro dos mais novos. Há crise na educação, com a escola a ser incapaz de integrar os mais pobres, algumas etnias, e de proporcionar a todos boas perspetivas de ter êxito na vida. Há crise no trabalho, manifestada no desemprego juvenil. Há crise na família: famílias de filho único, famílias em que os filhos vivem com um só progenitor, famílias reestruturadas por uma segunda união, etc.

Estes componentes do quadro da crise, e outros que ficam por dizer, explicam o porquê de muitos adolescentes não se sentirem integrados, respeitados ou úteis na sociedade. Então, ou eles reinventam a forma de se envolverem na sociedade, ou esta tem de reformar-se.

Alguns aspetos a corrigir

Uma grande parte dos adolescentes e jovens de hoje pensam apenas no presente, na satisfação dos desejos imediatos, em ser-lhes dado o último gadget, em ser-lhes comprado a roupa da moda. O seu maior problema é planear o futuro, esforçar-se hoje para serem recompensados amanhã.

Muitos adolescentes e jovens sentem falta de amor. Há neles sentimentos de revolta e de rancor misturados com um vazio interior. Os laços são superficiais, erotizados, passageiros, resumindo-se a «gosto», «não gosto», «cobiço-te», «já não és nada para mim».

Desafios para as famílias

O sínodo dos bispos sobre a família vai insistir na definição de família como igreja doméstica, para que a igreja paroquial seja uma «Família de famílias».

Será frisada a importância da oração em família (leitura da Bíblia, bênção da mesa, terço, memória dos acontecimentos importantes…), como forma eficaz para transmitir a fé.

Sublinhar-se-á a importância de a família se integrar na paróquia: participar na Eucaristia, prezar a reconciliação; apoiar a catequese; cuidar da saúde espiritual dos doentes e dos idosos, pelo sacramento da unção; fomentar as vocações ao sacerdócio e ao matrimónio.

Dir-se-á que se façam cursos para dar a conhecer com verdade a doutrina cristã acerca da moral. Há muitos que a criticam sem nunca terem lido ou escutado. É preciso inventar meios de a tornar acessível a todos.

E insistir-se-á que as famílias cristãs testemunhem a sua fé pela prática da solidariedade.

Por: Fernando Félix

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