A Amazónia numa redoma

Novembro 2017 / Ciência

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É preciso refletir sobre a forma como consumimos e como usamos a água. O desperdício é muito e a água, afinal, é um recurso tão limitado quanto precioso.

 

Pratik Ghosh, um jovem artista e desenhador indiano, decidiu estudar cinema de animação no seu país e depois rumou ao Royal College of Art, em Londres, no Reino Unido, para aprofundar os seus conhecimentos nesta arte. E foi o seu trabalho final de mestrado, que ele concluiu este ano, e ao qual chamou Drop by Drop (ou seja, gota a gota), que captou a atenção, não só dos seus professores, mas também do mundo empresarial, dos jornais, das revistas e das televisões. É que Drop by Drop é uma espécie de micro-Amazónia numa redoma – além de ficar bem numa sala, dando-lhe um toque algo exótico, também tem uma utilidade importante, que é a de purificar água (resultante de lavagens, por exemplo), de forma que ela pode ser utilizada no consumo humano, depois de “processada” pelas plantas.

 

Gota a gota cria-se consciência

«Há um ditado híndi [a principal língua da Índia, falada por 70 % da população] que diz que, gota a gota, o oceano enche-se», conta Pratik Ghosh na página da Internet sobre o seu projeto – www.ki-kando.com/work/#/drop-by-drop. E é também gota a gota – e o seu trabalho é sem dúvida uma dessas gotas – que se ganha nova consciência e se alteram os hábitos, neste caso, em relação à forma como usamos a água. A ideia de Pratik é exatamente essa. Como ele diz, o seu projeto «provoca», e também «convoca um novo sistema de valores, antes que seja tarde demais».

Pratik sabe do que fala. Foi com a animação que produziu para a sua licenciatura que ele realizou em 2010, no National Institute of Design, que se confrontou com o grave problema de escassez de água com que algumas comunidades se debatem, nomeadamente no seu país. O seu filme acabou por ser sobre isso: sobre o problema e também sobre o drama humano que ele acarreta.

Agora, o projeto de mestrado é a proposta de uma solução, com uma engenhosa utilização das plantas, que têm nas raízes um sistema de filtragem natural, para a purificação da água (de lavagens, de esgotos, etc.). A água entra impura na terra onde estão as plantas e, pelo processo de transpiração e condensação no interior da redoma, fica limpa e pronta a ser usada, depois de ser recolhida.

 

Uma experiência a reproduzir

Para demonstrar a sua ideia, Pratik idealizou uma elegante redoma, dentro da qual instalou uma floresta à escala, e que comunica com o exterior através de um sistema de tubos e torneiras. Tal como acontece na Amazónia, a pequena colónia vegetal do projeto Drop by Drop faz o seu ciclo de reciclagem de água: recebe-a através das raízes, que retêm as impurezas, absorve-a e alimenta-se, e depois devolve uma parte substancial à atmosfera, recomeçando tudo de novo.

Demonstrada a ideia, Pratik já está a olhar mais além. Ele acredita que isto pode funcionar a uma escala muito maior, reproduzindo o sistema em grandes estufas, capazes, por exemplo, de reciclar a água de toda uma aldeia. Pratik Ghosh, fixem este nome. Voltaremos certamente a ouvir falar dele.

Por: Maria Filomena Silva

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