Em Primeira Pessoa
Janeiro de 2009

Apóstolo dos leprosos chineses
Por: JORGE FERREIRA


 

Nos últimos 67 anos, o padre Luis Ruiz Suárez, da Companhia de Jesus (Jesuítas) trabalhou com os mais pobres da China, sobretudo com os leprosos. Tem 95 anos e dirige 145 leprosarias, que atendem 10 000 doentes, e um centro para doentes com sida. O seu lema é: «Não há maior alegria do que fazer as pessoas felizes».

 

O padre Ruiz não pensa aposentar-se. Diz que descansa trabalhando. Com 95 anos, afirma levar um regime de vida semelhante ao de um homem de 60. Levanta-se às 6h30 da manhã. Até aos 88 anos, viajava de moto. No tempo livre delicia-se com o futebol, que assiste na televisão chinesa, particularmente os jogos das equipas espanholas. Mas quer continuar a trabalhar com aqueles a quem consagrou a vida: os leprosos.

 

Quem é este homem

O padre Luis Ruiz Suárez nasceu em Gijón, Espanha, em 1913. A casa dos pais situa-se perto de uma comunidade do Instituto Companhia de Jesus. Aos domingos, ele era acólito na igreja deles e depressa desejou ser também jesuíta. Isso só aconteceu aos 17 anos, quando ingressou na etapa formativa chamada Noviciado, em Salamanca.

No ano seguinte, em 1931, o governo republicano de Espanha expulsou do país os Jesuítas e as demais ordens religiosas. Luis Suárez foi para a Bélgica. Em 1937, pediu para ser transferido para Cuba, e foi professor dos alunos em regime de internato no Colégio de Belém. Na outra área do colégio, para alunos externos, um estudante, a fazer o bacharelato, já dava nas vistas: Fidel Castro.

Quatro anos depois, o Instituto enviou-o para a China, onde foi ordenado padre em 1945. Durou seis anos a estada ali. Por um lado, os comunistas ocuparam a missão de Anking onde ele estava e levaram-no prisioneiro, por outro, depois de ser internado no hospital de Xangai com febre tifóide, foi expulso do país.

Foi, então, para Macau, que era colónia de Portugal. Chegou a uma cidade cheia de refugiados, atormentados pela fome, sem dinheiro e sem trabalho. Mas ele esqueceu a sua doença e começou a ajudar a população. Recebia ajuda da Caritas norte-americana e, até 1969, distribuiu arroz, massa e queijo a trinta mil pessoas, e providenciou também alojamento a quem precisava. Ao mesmo tempo, celebrava missa em chinês, inglês e português na paróquia.

Naquele último ano da década de 60, a China declarara Macau como território chinês, e proíbe os jesuítas de receber mais refugiados. Mas o padre Luis Ruiz Suárez e os colegas continuaram a trabalhar, e criaram três lares para idosos, um para senhoras e dois para homens, e ainda um centro para deficientes mentais.

 

Apóstolo dos leprosos

Em 1986, o padre Luis Ruiz Suárez, apesar dos 73 anos, visitava, com a ajuda de uma moto, as missões dispersas. Um dia, o padre Lino Wong, seu amigo, contou-lhe que havia uma leprosaria em condições miseráveis na província de Guangdong, no Sudeste da China. Ali, numa ilha, as autoridades tinham depositado todos os leprosos. Então, uma noite, ele e o padre Lino foram lá numa lancha de pesca. Pareciam contrabandistas.

O padre Luis levou cigarros para dar aos leprosos. Quando chegou, deparou com um cenário aterrador, que nunca mais esqueceu: aquela gente vivia num lugar sujo e asqueroso. Centenas de pessoas agonizavam abandonadas, sem comida, sem roupas, sem qualquer tipo de ajudas.

Um leproso aproximou-se dele e o padre Luis estendeu-lhe a mão, para o cumprimentar. Reparou, nesse instante, que faltava ao homem uma parte do braço. A falta de algum membro ou de uma parte do corpo era comum a todos os habitantes da ilha. Então, ele acendeu os cigarros e colocou-os na boca ou nos cotos dos leprosos.

A ilha de Tai Kan (Cantão) foi, a partir de então, a sua missão. Em Macau tinha 25 freiras a trabalhar com ele. Pediu-lhes ajuda. Cinco foram com ele: uma espanhola, de Sevilha, e quatro indianas. Com o tempo, ergueram 40 leprosarias naquele território.

Em 1992, visitou os leprosos nas províncias de Yunnan e Sicuani, no Sudoeste da China. Dez anos depois, deixou a direcção da Caritas chinesa, para se dedicar completamente aos leprosos. E ainda dirige 145 leprosarias, as quais atendem 10 000 doentes e, desde 2004, também um centro para tratamento de doentes com sida na província de Hunan.

 

Onde nasce a caridade

Algumas pessoas perguntam ao padre Ruiz de onde lhe vem a força para executar a sua missão. Ele responde que a fonte é o Evangelho de Jesus Cristo e os meios são as virtudes das pessoas: «Quando se vê a pobreza, não é possível cruzar os braços. Não há maior alegria do que fazer as pessoas felizes», sintetiza ele. E acrescenta, com um brilho nos olhos: «Tinham de ver as mudanças que ocorrem na vida dos leprosos. Quando chegámos à ilha de Cantão, não havia água nem electricidade; as casas estavam em ruínas, e todos passavam fome. Começámos a perfurar poços, depois conseguimos umas placas solares para aquecer a água. Havia muitos leprosos que me diziam: ‘Padre, é a primeira vez que tomamos banho com água quente’.»

Nas leprosarias existem escolas para os filhos dos doentes. Cada ano, são cerca de 2000 alunos, do ensino básico até à universidade, que as frequentam. Em Macau há uma escola que já é muito famosa. E os ex-alunos não esquecem a obra, pois enviam-lhe donativos. Também recebe ofertas de benfeitores da Alemanha, Inglaterra, Espanha e dos Estados Unidos.

Também há jornalistas que, escandalizados, lhe dizem: «Todos conhecem Madre Teresa de Calcutá… Porque não se conhece o padre Luis Ruiz?» E ele responde: «Isso não me preocupa. Eu não faço propaganda do que fazemos. Trabalhei sempre com os mais pobres e, às irmãs, aos funcionários e aos voluntários, peço que sejam discretos. Nós fazemos o trabalho de Deus. Ele é o nosso Pai e também o Pai dos leprosos. O trabalho cristão é o da caridade, não o do fazer ruído.»

E é assim que o padre Luis é mensageiro de Deus na China, onde as autoridades comunistas não deixam que se fale de Cristo. Ele mesmo explica: «O próprio Jesus disse aos judeus ‘se não acreditais em minhas palavras, acreditai ao menos em minhas obras’. Há uns anos, um senhor chinês, que passou uma semana comigo visitando as leprosarias, disse-me: ‘Eu não creio em Deus, mas creio no trabalho que faz o padre Ruiz’. E eu respondi-lhe: ‘Pois, se crês em mim, crês também em Deus’.»


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