
Na vertente norte da serra da Gardunha, há uma planta que não se encontra em mais nenhum local do mundo.
O Fundão, distrito de Castelo Branco, foi o berço de uma planta única no mundo. Não existe em mais lado nenhum. E, todavia, corre sérios riscos de extinção. É conhecida popularmente como abrótea, abrótega, gamão ou bengala-de-são-José, pois é do género Asphodelus, em cuja família há sete espécies, e há parecenças entre elas. Contudo, individualmente, e para a ciência, o seu nome é Asphodelus bento-rainhae. As espécies Asphodelus podem ser vistas de norte a sul de Portugal. Na serra da Gardunha, além da bento-rainhae, existem mais duas espécies. As principais diferenças entre elas estão nas cápsulas e nos tubérculos.
A floração da bento-rainhae ocorre em abril e maio e a frutificação de maio a junho. Esta é, pois, uma boa época para a conhecer, fazendo passeios pela serra. As bento-rainhae distribuem-se em manchas, mais ou menos contíguas, revestindo encostas de fácil acessibilidade, entre os 500 e os 850 metros de altitude. Estima-se que existam entre dez mil e quinze mil exemplares.
A Asphodelus bento-rainhae é uma espécie endémica. Ela é única, específica, património natural da Gardunha, em particular, mas também de Portugal e do mundo inteiro, e ficaríamos mais pobres sem ela.
Urbanização rouba terreno
Atualmente, a área livre para a expansão da Asphodelus bento-rainhae é reduzida. Resta o equivalente a 700 campos de futebol (700 hectares). As outras áreas potenciais de expansão já foram urbanizadas. Cada ano, a área livre reduz-se ainda mais. E isso deixa esta planta «em perigo crítico de extinção», no entender da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Outras ameaças
Além da redução da área de habitat disponível para a sua expansão, a Asphodelus bento-rainhae vê-se ameaçada pelo aumento da área dedicada aos pomares regionais, sobretudo de cerejeiras, pessegueiros e macieiras; ou ao cultivo de carvalhos, castanheiros e pinheiros; ou ao surgimento de matos selvagens após destruição da flora pelo fogo; e, ainda, pelo uso de herbicidas.
Um pouco de história
A Asphodelus bento-rainhae foi descrita pela primeira vez em 1956 pelo botânico Pinto da Silva. E este deu-lhe o nome do seu amigo e companheiro de descoberta, Bento Victória Rainha. A planta não conquistou qualquer aplicação económica. Pouca gente olha para ela, nem que seja pela sua beleza na paisagem. No entanto, segundo alguns testemunhos populares, o sumo do tubérculo pode ser utilizado para certas infeções da pele (eczemas).