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Diário de Laura
Julho de 2004

Monte Gordo, aí vamos nós!
Por: ALICE VIEIRA, Jornalista e escritora



Depois de muitos dias a matutarmos no melhor lugar para as férias, decidimos então pegar no telefone para as marcações – e é evidente que já está sempre tudo cheio. Aí então a Avó Licínia ri mesmo a sério, grande gargalhada, «eu já sabia, eu já sabia», repete ela, e o meu pai, furioso, acaba por sair porta fora exclamando «pronto, vamos lá para Monte Gordo outra vez!».

 

E pronto, chegou a hora de fazermos as trouxas e abalarmos para Monte Gordo. A minha mãe suspira, o meu pai faz contas às horas de viagem e à gasolina e suspira, eu encho a mochila de tralha e suspiro – só a Avó Licínia anda feliz, remoçada, dá ordens e contra-ordens à Tia Teresa, manda postais para a Tia Lena, que vive em São Paulo, e para o Tio Ricardo, que vive em Toronto, a avisar da nossa partida para o Algarve – e é a única que não suspira...

Todos os anos o meu pai promete que desta vez é que é, desta vez nada de Algarves, que ele passa o ano inteiro rodeado de gente e o que quer nas férias é paz e descanso, desta vez vamos para um lugar mais sossegado, o Alentejo, o Norte, sim, porque não o Norte, que é tão bonito, tão cheio de verde, tão repousante. Aí a minha mãe arrepia-se toda e diz logo, «ai tem paciência, Miguel, mas nas praias do Norte é que ninguém me apanha, aquela água é tão gelada que até os ossos rangem todos quando molhamos os pés, e tu já sabes que nas férias eu preciso muito de praia, olha o que disse o médico da última vez que eu lá fui» – e pronto, as hipóteses de viagens ao Norte acabam-se logo ali. Mas, apesar de tudo, restam muitas outras hipóteses, e durante todo o ano andamos sempre a fazer planos.

– Porque não Porto Covo? – digo eu, depois de o Jonas me ter contado que as férias por lá costumam ser muito divertidas.

– Porque não Vila Nova de Milfontes? Acho que a água lá é uma maravilha – diz a minha mãe.

O meu pai normalmente não dá opiniões, mas vai acenando com a cabeça, por ele tudo bem, mas a gente que se despache a escolher, porque senão, quando formos para marcar, já está tudo cheio.

A Avó Licínia, que vai sempre connosco nas férias, nunca diz nada, encolhe apenas os ombros e apressa o ritmo das agulhas de tricô. Às vezes dá uma leve gargalhada, mesmo muito leve, o meu pai então pergunta «a mãe disse alguma coisa?», e ela responde, «não, nada», e lá fica na sua malha.

Depois de muitos dias a matutarmos no melhor lugar para as férias, decidimos então pegar no telefone para as marcações – e é evidente que já está sempre tudo cheio. Aí então a Avó Licínia ri mesmo a sério, grande gargalhada, «eu já sabia, eu já sabia», repete ela, e o meu pai, furioso, acaba por sair porta fora exclamando «pronto, vamos lá para Monte Gordo outra vez!».

A Avó Licínia adora Monte Gordo. Ainda o Avô Raul era vivo e já eles iam passar as férias para lá. Mas, nessa altura, segundo ela conta, Monte Gordo era quase um deserto, uma pequena aldeia de pescadores lá no fim do mundo. «Uma aldeia com uma grande história!», remata sempre. Uma história que ela já me contou mais de cem vezes. Então parece que é assim: por volta de 1600 (quando conta a história, a Avó Licínia diz sempre «claro que ainda eu não era nascida» e a gente ri-se para ela ficar feliz) houve uma grande tempestade de ondas gigantescas, que arrastou consigo todas as cabanas de palha e cal de uma aldeia. A população viu-se então obrigada a refazer tudo num local ali perto, chamado Monte Gordo. Durante um século aí viveram, até que o Marquês de Pombal decidiu construir, no lugar deserto e coberto de areia da antiga povoação desaparecida, uma nova povoação, que servisse de sede a uma companhia de pescas que ele ia fundar. E assim nasceu Vila Real de Santo António, edificada em cinco meses! Então foi dada ordem a todos os habitantes de Monte Gordo de regressarem ao seu primitivo lugar. Mas os pescadores tinham muito pouco a ver com aquela terra tão nova, de ruas traçadas a régua e esquadro, tão longe da tradição das suas ruelas estreitas, e disseram que não sairiam de Monte Gordo. Muitas vezes os obrigaram, e todas as vezes eles recusaram. Até que o Marquês de Pombal perdeu a paciência (que nunca tinha sido muita) e mandou incendiar todas as cabanas de Monte Gordo. Pois nem assim os convenceu: pegaram nos barcos, nas redes e, com os conhecimentos de pesca e da costa que tinham, transferiram-se todos para Ayamonte, em Espanha. Dizem os entendidos – e a minha Avó Licínia faz coro com eles – que a pesca algarvia nunca mais se recompôs. Claro que hoje em dia já ninguém se lembra desta história, a não ser a minha Avó Licínia, que ainda pensa que Monte Gordo continua a ser aquela pequena aldeia de pescadores para onde ela ia passar férias com o Avô Raul em casa de uns primos que, no mês de Agosto, iam sempre para o estrangeiro e lhes deixavam a casa. Esses primos já morreram, mas os filhos seguem o velho hábito e, por isso, em Agosto, há sempre um apartamento que ali espera por nós. E nós lá vamos. Com suspiros de toda a gente – menos da Avó Licínia, que se sente a regressar aos tempos da sua juventude...

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