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Maio de 2002

Axum: A cidade santa
Por: JOSÉ VIEIRA



Os colonizadores europeus falavam da África como o continente negro, sem civilização nem história. Contudo, no continente africano existem nações mais antigas que as da Europa, como a Etiópia, que tem as suas origens no império de Axum.

 

Axum (diz-se aksum) fica no Norte da Etiópia e foi do século I ao século VIII a capital de um império comercial marítimo muito forte e um dos maiores Estados do mundo antigo. Os axumitas surgiram 500 anos antes de Cristo da mistura de camitas etíopes com emigrantes sabeus da península arábica. Negociavam marfim, peles e cereais com a África, Arábia e Índia, a partir do porto de Adulis, no mar Vermelho. O império axumita decaiu com o aparecimento do Islão, que lhe barrou o acesso ao mar.

Hoje, Axum é uma cidade modesta, com cerca de 30 mil habitantes. Fica a dois dias de viagem de Adis Abeba, a capital etíope moderna.

Contudo, a cidade guarda com orgulho as marcas de uma história que pode ser contada a partir do século VII antes de Cristo, através de documentos grafados em guêz, sabeu e grego em placas de pedra lá encontradas.

 

O palácio real

As construções mais antigas de Axum são as ruínas mais ou menos preservadas ou reconstruídas de palácios que se julgam reais. Há também alguns aquedutos e cisternas que abasteciam a cidade de água potável. Calcula-se que essas ruínas sejam de cerca do ano 200 a.C.

A tradição etíope atribui esses edifícios a Makeda, conhecida na Bíblia como rainha de Sabá. A soberana axumita fez uma viagem a Jerusalém para conhecer Salomão. Diz ainda a tradição que ela regressou grávida de Jerusalém e que da sua relação com Salomão nasceu Menelik I, o primeiro imperador etíope.

 

As estelas

As estelas de Axum são outro marco importante na cidade. Trata-se de placas funerárias que assinalam os túmulos de altas individualidades axumitas. Hoje existem cerca de 120. A maioria são simples pedras lisas e pequenas.

No entanto há três estelas que sobressaem pela beleza e monumentalidade: duas estão em Axum e uma em Roma, levada em 1937, durante a ocupação italiana.

As estelas gigantes de Axum são feitas de uma só pedra (monólitos) e parecem pequenos arranha-céus pela maneira como foram decoradas. Têm esculpida uma porta de entrada, e nove fieiras de janelas, como se fossem andares. As estelas são encimadas por um remate curvo. Parece que era coberto por placas de bronze, representando a Lua, a divindade sabeia.

Por baixo dos obeliscos há catacumbas formadas de corredores e câmaras funerárias. Algumas têm arcos com a forma da ranhura de uma chave, um estilo importado da Síria, país com quem Axum tinha contactos comerciais.

Os obeliscos de Axum têm quase dois mil anos. Dos dois que se encontram ainda na cidade, um caiu por terra e está partido. Media mais de 30 metros de altura e foi o maior monólito talhado até ao seu tempo. O que permanece de pé tem cerca de 26 metros e pesa à volta de 200 toneladas, como o que se encontra em Roma, na Praça da Porta Capena.

 

As igrejas de Santa Maria de Sião

O rei Ezana de Axum converteu-se ao cristianismo em 325 e fez do império axumita um estado cristão.

Segundo uma velha tradição etíope, Menelik I foi enviado pela mãe a Jerusalém para conhecer o seu pai, Salomão. Este queria que o príncipe se quedasse em Israel para lhe suceder. O jovem, contudo, tinha prometido à mãe que regressaria à Etiópia.

Salomão decidiu enviar alguns jovens israelitas com Menelik. Estes, na noite da partida, foram ao Templo e levaram a Arca da Aliança, que os etíopes chamam Tabot.

A Arca da Aliança era uma caixa de acácia e ouro que Moisés mandou fazer para guardar dentro as duas pedras com os mandamentos que Deus lhe entregou no monte Sinai. Era uma peça muito importante na devoção do povo de Israel. Chegavam a levá-la para os campos de batalha durante a conquista das terras de Canã e nas lutas pela independência.

A Arca foi guardada numa tenda especial até que Salomão mandou construir o templo de Jerusalém. Foi então depositada na parte mais importante do Templo, o Santo dos Santos. A certo ponto, a Bíblia deixa de falar dela.

Os etíopes asseguram a pés juntos que a Arca se encontra na Igreja de Santa Maria de Sião, em Axum.

A igreja primitiva que albergava a preciosa relíquia foi queimada durante a guerra santa que os somalis moveram contra os etíopes no século XVI. Nessa altura, o Tabot foi escondido numa ilha num lago, no centro do país. Depois da derrota dos muçulmanos, com a ajuda de tropas portuguesas, em 1543, foi construída uma nova igreja de Santa Maria de Sião para receber de volta a Arca da Aliança. Entretanto, o Tabot foi transferido para uma outra capela quadrangular construída mais tarde. Aí permanece, guardada dia e noite por um monge ortodoxo, que lá fica até morrer. Só esse religioso é que tem acesso ao lugar santo.

Visitei Axum pouco antes de deixar a Etiópia, em Agosto de 2000 e recordo um episódio curioso. No nosso grupo havia uma irmã etíope. Um clérigo ortodoxo ficou muito zangado quando a freira fez menção de se aproximar do muro lateral da pequena igreja quadrada onde está guardado o Tabot. Para os ortodoxos, as mulheres - mesmo as consagradas - são impuras e não podem passar por perto do lugar santo, para o não dessacralizar.

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