Os arruamentos da capital angolana são o lar sem tecto para mais de 4000 crianças, vindas da guerra, violência, desintegração familiar. Elas são o novo campo de trabalho para um missionário que as descobriu numa noite de recolher obrigatório.
Djalala nasceu num dos musseques que guarnecem a cidade de Luanda, a capital angolana. Um dia aconteceu uma desgraça à sua família e o miúdo foi acusado de ser o culpado. Diziam que tinha recebido o poder de fazer feitiço de um adulto e torturaram-no para lhe “expulsar o mal”. Acabou muito maltratado, com escoriações e queimaduras múltiplas, abandonado nas ruas de Luanda.
Cambuta José Ginga nasceu no interior profundo de Angola, um daqueles lugares tão longínquos que nem vêm nos mapas. Mas nesse longe os soldados do Governo e os guerrilheiros da UNITA envolviam-se em combates constantes para controlar umas minas de diamantes. Cambuta foi ferido pelo estilhaço de uma granada. Levaram-no para Luanda e abandonaram-no junto ao aeroporto. Ferido e faminto, encontrou apoio num bando de miúdos sem tecto.
Gertrudes Nhunba nasceu numa família humilde. A sua vida era tranquila, apesar da pobreza. Mas o pai perdeu o emprego, começou a embebedar-se e até arranjou uma esposa nova. O ambiente em casa era péssimo e a madrasta enchia-a de pancada. A rapariga fugiu e, para sobreviver, dedica-se à prostituição nas ruas da capital angolana.
Estes nomes são fictícios, mas as histórias infelizmente são verdadeiras. São as histórias de mais de 4000 crianças que fazem das ruas e becos de Luanda a sua casa permanente. Aí vivem e morrem. São crianças marcadas pela guerra, que nunca viveram em paz. Cerca de 2000 foram corridas pelas famílias, porque “têm feitiço”. São violentas e vivem em bandos, que controlam áreas definidas da cidade. Para enganarem o vazio do estômago e do coração, cheiram gasolina ou cola, consomem álcool, fumam drogas. Estão marcados por traumas, problemas familiares, violência e guerra. Algumas têm ferimentos graves. Sofrem com o paludismo e a sida e alimentam-se do lixo dos hotéis.
Recolher obrigatório
O P. Horácio Cavallero chegou a Luanda em 1993. Nasceu na Argentina há 41 anos e pertence à congregação dos Missionários do Verbo Divino. Viveu em S. Paulo, no Brasil, onde trabalhou com meninos da rua. Entretanto, foi enviado para Angola, para a província da Lunda. A guerra civil não o deixou chegar ao seu destino e ficou-se por Luanda.
Nessa altura vivia-se em regime de recolher obrigatório. Depois das nove da noite até às cinco da manhã ninguém pode andar na rua. Quem fosse apanhado a violar a lei estava sujeito a ser preso ou a levar um tiro. Era uma questão de vida ou de morte.
O P. Horácio espantou-se por ouvir quase todas as noites alguma algazarra na rua junto à sua residência, apesar do recolher obrigatório. Curioso, arriscou-se a saltar o muro. E assim descobriu os meninos da rua de Luanda.
O P. Horácio ficou impressionado com o que encontrou, e achou que, como missionário retido na cidade, tinha que fazer alguma coisa. Utilizando a experiência acumulada na cidade de S. Paulo, envolveu alguns jovens da paróquia nesse trabalho arriscado. Todas as noites saíam com cautela, para não serem apanhados pela polícia militar, para se encontrarem com pequenos bandos de putos violentos sem eira nem beira, que faziam das ruas desertas da capital o seu território.
Começaram por oferecer uma refeição quente por dia aos miúdos que iam contactando de noite nas ruas. Entretanto, passou-se a palavra e o grupo foi crescendo. O ponto de assistência foi mudado para uma das ilhas de Luanda. Mais de 750 putos chegaram a juntar-se nesse acampamento durante três anos e meio, apesar das condições muito precárias em que estava instalado. Tinham aulas debaixo de uma árvore e o refeitório funcionava numa tenda velha. E mais de 350 crianças eram atendidas diariamente na baixa luandense.
As condições na ilha eram provisórias e difíceis. Sonhava-se com uma solução definitiva, a construção de um centro para acolher os rapazes. O arcebispo de Luanda deu uma ajuda, disponibilizando um terreno na cidade. Algumas organizações não governamentais apoiaram o projecto com equipamentos e outras ajudas. Assim foram construídos dormitórios para 200 rapazes e um refeitório para 500. A televisão divulgou a iniciativa e chegaram novas ajudas. Com 18 contentores construiu-se uma escola profissional. Assim nasceu o Centro Arnaldo Janssen. O P. Horácio, que passou por Lisboa em Maio, disse que tinha um só objectivo: ensinar os meninos da rua a sonhar.
Centro Arnaldo Janssen
O Centro Arnaldo Janssen alberga 200 rapazes até fazerem 17 anos. Os mais novos vão à escola do Governo. Os mais velhos recebem formação profissional nos âmbitos da electricidade, carpintaria, serralharia e estofos. O Centro passa um certificado oficial reconhecido pelo Governo e quase metade dos alunos conseguem emprego no fim do curso. Todos os rapazes recebem ainda documentação civil e aos 17 anos são reinseridos na família.
Os primeiros contactos são feitos nas ruas. Alguns educadores sociais seguem meio milhar de crianças que erram pelas ruas de Luanda, visitando 10 a 15 grupos por semana e fazem-lhe a proposta de frequentarem o centro. As crianças têm entre 10 e 14 anos.
O Centro só acolhe rapazes. Há poucas meninas nas ruas de Luanda. Normalmente são recrutadas por famílias da capital como mão-de-obra barata para os trabalhos domésticos. Uma ou outra acaba na prostituição. Mas há organizações que se encarregam de seguir as raparigas, normalmente ligadas a congregações de freiras.
Para frequentar o Centro Arnaldo Janssen é preciso ter algum familiar que possa servir de referência no acompanhamento dos miúdos e que no fim os possa receber de novo em casa. Ninguém é admitido sem primeiro se identificar, provar de onde vem, e indicar o nome de algum parente, próximo ou distante. Os educadores visitam as famílias para começar o processo de reconciliação entre as mesmas e os rapazes.
O centro é um espaço de segurança e de acolhimento para os rapazes da rua e segue uma pedagogia própria: rigorosos, mas misericordiosos, os ingredientes básicos para formar profissionais e cidadãos responsáveis. Por isso, há que seguir horários, tarefas e ritmos comunitários com disciplina: higiene, comida, trabalho, escola, estudo, limpeza. Quando os miúdos chegam tarde ou se portam mal, são chamados à atenção. Às três é de vez e são expulsos do Centro. Só serão aceites de volta se se comprometerem a respeitar os regulamentos do Centro. As regras são estabelecidas pelos próprios rapazes. O regulamento ensina-lhes valores e dá-lhes novas possibilidades.
Além da formação escolar e profissional, os rapazes também são ajudados a ultrapassar os traumas que a infância nas ruas e na guerra lhes provoca. Têm espaços para contarem o passado e expressar o que lhes vai no coração. Normalmente fazem-no à noite, à volta de uma fogueira. Cantam e contam as suas histórias, ajudados por técnicas de terapia de integração. Alguns necessitam de acompanhamento técnico especializado para lidarem com os conflitos que trazem dentro de si e entenderem os dramas interiores que carregam e mudarem o comportamento. São ajudados por seis educadores sociais que os seguem. Outros tantos seguem os diversos bandos nas ruas. Há ainda um grupo de seminaristas que dão catequese, ajudam a preparar a missa de domingo e são amigos dos rapazes. Há ainda três guardas, duas freiras e o P. Horácio, mas nenhum deles vive no Centro.
Os utentes do Centro vivem em três camaratas (sessenta e tal por cada uma) e essa é a base da sua organização, assegurando as diferentes tarefas da cozinha, limpeza e saúde.
Os meninos da rua que frequentam o Centro Arnaldo Janssen já aprenderam a sonhar outra vez. Eram delinquentes urbanos sem futuro. Agora querem ser ministros, jogadores de basquetebol, cantores. Usam os tempos livres para preparar e ensaiar canções e coreografias mais arrojadas, imitando os artistas da televisão. E a maioria quer estudar pelo menos até à oitava classe. E ensinam uns aos outros o que vão aprendendo.
Férias solidárias
A Filipa Dias frequenta o Curso de Serviço Social da Universidade Católica de Lisboa. Tem 21 anos e no verão de 2001 passou dois meses com outros elementos do GAS’África a trabalhar com os meninos do Palanca, em Luanda.
Em Agosto de 2001 parti para Luanda, para aquela que seria a primeira missão da minha vida. Ia integrada no GAS’África (Grupo de Acção Social em África e Portugal, da Universidade Católica Portuguesa). Levando no coração os seus pilares (oração, serviço e humildade), partimos ao encontro de quem mais precisa.
Em Luanda, o primeiro impacte foi o de uma cidade desorganizada e com uma extrema pobreza material, mas, à medida que fui conhecendo as pessoas da terra, fui-me surpreendendo com a sua alegria e riqueza espiritual.
O nosso serviço consistia em prestar auxílio aos doentes do Hospital Maria Pia e em estar com os meninos de rua no Centro de Acolhimento do Palanca.
Todos aqueles meninos tinham fugido de casa onde eram maltratados ou das províncias onde a guerra tinha exigido que deixassem tudo (família, casa, vizinhos e amigos), em direcção a Luanda, onde, iludidos, pensariam estar melhor e em segurança. Viveram tempos muitos difíceis morando na rua, em esgotos ou lixeiras e comendo sabe-se lá o quê para sobreviverem.
Mas, um dia, encontraram o Padre Horácio, numa das suas saídas à noite para distribuir comida pelos meninos de rua, que os convidou a irem para o Centro onde poderiam estudar, crescer e principalmente sonhar.
No Centro, estes meninos têm várias tarefas, como o limparem as camaratas, lavarem as suas roupas, varrerem o refeitório, etc... Tudo isto é sempre feito em grupos.
É-lhes dada no Centro oportunidade de terem uma cama, comida, irem à escola, terem explicações e aos mais crescidos a possibilidade de tirarem um curso profissional de carpintaria, serralharia ou mecânica.
Ao vê-los, senti que para muitos teria sido a primeira vez que alguém os olhou com o respeito que o “ser criança” merece.
O meu serviço no Centro de Acolhimento do Palanca consistia essencialmente em dar-lhes explicações e brincar muito, muito, muito… Era uma alegria!
Todos os tipos de brincadeiras eram bem-vindos. Dos mais novos aos mais velhos, todos pareciam ter sede de brincar, já que a vida os obrigou a tornarem-se adultos muito cedo, tendo que adiar a experiência de ser criança.
Trabalhar com estes meninos foi para mim uma experiência única, onde aprendi muito mais do que ensinei e fui muito mais amada do que amei. Todas aquelas crianças tinham um dom especial, com os seus olhares ternos e meigos, que escondiam um sofrimento passado, mas que transmitiam uma esperança, amor e alegria inabaláveis.
Foi uma experiência para toda a vida, que marcou o meu coração e certamente marcou também os corações de cada um daqueles meninos que durante aqueles dois meses inesquecíveis me ensinaram que para sermos felizes precisamos de muito pouco!
Filipa Dias